A Verdade: E QUE O VATICANO
FOI SILENCIADO POR MOSCOU
Jean Madiran
O artigo que seguir, escrito por Jean Madiran foi originalmente publicado
em julho-agosto de 1984, no exemplar da Itinerarios. A existencia de um
acordo entre o Vaticano e Moscou e confirmada por Mons. Georges Roche, um
amigo intimo do Cardeal Tisserant, que negociou o Acordo Vaticano-Moscou
com Dom Nikodim, o arcebispo ortodoxo que controlava a K.G.B. Russa. Mons.
Roche esta agora preparando a biografia de Tisserant. O Cardeal Tisserant
(1884-1972) foi Pro-Prefeito da Biblioteca do Vaticano, Arquivista (1930-1936),
feito cardeal em 1936, instrutor do Sacro Colegio de Cardeais (1951), e
Secretario da Congregacao da Igreja do Leste (1936-1954).
A Confirmacao do Acordo Roma-Moscou por Mons. Roche
A despeito dos insultos que ela contem, aqui e ali, estou publicando a carta
de Mons. Roche; estou publicando-a na integra, para que pessoas de mentalidade
suspeita nao suponham que, omitindo passagens ofensivas, eu tenha tambem
cancelado algum ponto importante.
Mons. Georges Roche foi, durante longo tempo, amigo intimo do Cardeal Tisserant.
O proposito desta carta inteira e defender a memoria do Cardeal e desculpa-lo
no que concerne ao vergonhoso Acordo de 1962, ao qual dedicamos nosso editorial
"O Acordo Vaticano-Moscou" (este artigo foi publicado, na integra, no exemplar
do Cruzado de Fatima numero 16*, mas umas poucas notas de rodape foram omitidas).
* Veja a pagina 240 deste livro
O ponto essencial e que Mons. Roche confirma a existencia e as clausulas
do Acordo, a respeito das quais a opiniao publica nada sabe.
Em sua carta, Mons. Roche repetidamente usa formulas tais como 'todo mundo
sabe', 'ninguem pode estar desavisado', 'por razoes obvias'. Quando, de
fato, nada era obvio, ninguem sabia de nada e todos estavam alheios a questao.
Entre os autores que tem criticado o escandaloso silencio do Concilio Vaticano
II no que diz respeito ao Comunismo, segundo estou informando, ninguem questionou
o Acordou Tisserant - Nikodim, concluido em Metz em 1962.(1) O Acordo foi
exposto e comentado no exemplar de abril de 1963, da Itinerarios. Mas quando
fiz alusao direta a ele, num artigo publicado na Presente, em dezembro de
1983, pude ver muito claramente com que pasmo ou incredulidade os leitores
receberam as informacoes. Eis por que levantei toda a questao, uma vez mais,
em fevereiro de 1984, num exemplar da Itinerarios. E a este editorial que
Mons. Georges Roche resolveu replicar.
As notas de rodape que acompanham a carta de Mons. Roche sao todas minhas.
Elas se referem a algumas anomalias menores contidas nesta missiva.
A Carta de Mons. Roche
14 de maio de 1984
Prezado Editor:
E com o maior interesse que tenho lido seu artigo publicado no exemplar
de numero 280 (fevereiro de 1984) da revista Itinerario e cujo titulo e:
'O Acordo Vaticano-Moscou'.
Voce comenta, nao sem razao, sobre este Acordo, o qual voce diz datar de
1962. Todavia, parece estar desavisado sobre um acordo anterior, acontecido
durante a Segunda Guerra Mundial, em 1942, para ser mais exato, cujos protagonistas
foram Mons. Montini e o proprio Stalin. Este Acordo de 1942, em minha opiniao,
e de consideravel importancia.
Para o momento, no entanto, desejo tratar exclusivamente de seu comentario
a respeito do Acordo de 1962.
Todo mundo sabe que este Acordo tinha sido negociado entre o Kremlin e o
Vaticano, em nivel mais alto. Dom Nikodim e o Cardeal Tisserant eram meramente
porta-vozes. O primeiro representando o chefe do Kremlin e o ultimo representando
o Soberano Pontifice que, na epoca, reinava.
Se Dom Nikodim desejou encontrar-se com o Cardeal Tisserant, como autentico
representante (da Santa Se) foi por razoes obvias, que todo mundo conhece.
Em primeiro lugar, o Cardeal Tisserant sabe falar Russo. Alem disso, de
1936 ate 1954, ele tinha sido Secretario da Sagrada Congregacao da Igreja
do Leste. Finalmente, os 2 homens conheciam um ao outro e tinham se encontrado
para tratar de problemas concernentes a Biblioteca do Vaticano, da qual
o Cardeal havia sido Pro-Prefeito, de 1930 ate 1936.
Entretanto, posso assegurar a voce, Sr. Editor, a decisao de convidar os
observadores Ortodoxos Russos para o Concilio Vaticano II foi tomada pessoalmente
por Sua Santidade o Papa Joao XXIII(2), com o obvio encorajamento do Cardeal
Montini, que tinha sido consultor no Patriarcado de Veneza, ao tempo em
que era arcebispo de Milao. E mais, foi tambem o Cardeal Montini quem secretamente
direcionou a politica do Secretario de Estado, durante a primeira sessao
do Concilio, dando as coordenadas do lugar secreto que o Papa havia preparado
para ele, na famosa Torre de Sao Joao, dentro mesmo dos muros da Cidade
do Vaticano.
O Cardeal Tisserant tinha recebido instrucoes formais nao apenas para negociar
o Acordo, mas tambem para supervisionar se ele estava se desenvolvendo precisamente
durante o Concilio. Assim qualquer ocasiao em que um bispo desejasse abordar
a questao do Comunismo, o Cardeal intervinha, na qualidade de consultor
do Presidente, para lembrar a ordem de silencio (relativa a esta questao),
de acordo com a vontade do Papa.(3)
Fiquei verdadeiramente escandalizado, Sr. Editor ao ler na Nota Textual
4 de seu Apendice (pagina 13), as nove linhas, as quais, em minha opiniao,
sao indignas de um historiador serio. Voce realmente escreve ali: 'Cardeal
Tisserant gostava de ser um Gaulista, dos quatro costados, por principio.'
Esta afirmacao e ridicula. Ninguem podia realmente ignorar que o Cardeal
Tisserant era um Gaulista e dos bons.(4) Primeiramente, em sendo um nativo
de Lorraine e tambem por razoes que ele havia explicado inumeras vezes.
Alem do mais, durante a guerra, ele foi nomeado Capelao da Resistencia e,
sem intencao alguma em Roma, havia criado um autentico grupo da Resistencia,
o qual incluia a pessoa de Sua Exa. Mons. Andre Julliem, entao instrutor
do Tribunal da Rota Romana e representante extra-oficial do General de Gaulle.(5),
Mons. Fontenelle, correspondente do jornal A Cruz e Mons. Martin, pertencente
ao Secretario de Estado e agora Prefeito do Palacio Apostolico, inclusive
muitos outros nomes. A fim de evitar a prestacao de honras militares formais
ao Exercito Alemao, o Cardeal Tisserant recusou a oferta de Pio XII, nao
recebendo a Arquidocese de Rheims, para onde acabou indo o Cardeal Suhard,
que havia sido transferido para Paris.(6)
Esta primeira sentenca de sua Nota Textual, numero 3, Senhor Editor, continua
deste modo: 'nenhum descomprometimento anti-comunista (o que e muito menos
certo).'
Tendo colaborado com o Cardeal por 25 anos, em Roma, penso que conheco seu
pensamento. Ele foi um anti-Comunista por conviccao, de ordem religiosa,
filosofica e social. Eventualmente, denunciou as perseguicoes, que campeavam
e campeiam por tras da Cortina de Ferro. Se voce quiser, posso enviar a
carta pastoral que ele publicou sobre esta questao. Entretanto, estou enviando
a voce duas pequenas brochuras, em Frances, sobre este tema.(7)
Sua segunda afirmacao e muito mais curta, mas eu a considero francamente
abominavel. Voce ousa escrever coisas assim sobre o Cardeal Tisserant: 'Tenho
sempre tido a impressao de que ele era um traicoeiro patife'. Eu, George
Roche, lendo isto de sua pena, tenho a impressao de que voce nunca conheceu
o Cardeal. Se ele tinha defeitos, e tinha, eu enfatizaria antes sua incapacidade
para ser um impostor. Em outras palavras, nada tinha da uncao eclesiastica
que frequentemente e associada a figura de um prelado da Santa Igreja Romana.
Ele era um homem direto, franco, chegando ao ponto de ser brusco. Para ele,
a melhor forma de diplomacia era a verdade, o avanco direto e a lealdade.
Era um soldado. Como eu disse, obedecia a seus superiores. Mesmo quando
as ordens emitidas escassamente correspondiam ao seu ponto de vista, mesmo
quando achava estas ordens positivamente desagradaveis. Sinto-me envergonhado
por voce, Dr. Madiran, em ler esta afirmacao caluniadora de sua pena: 'Muito
ainda podia ser dito sobre ele (Cardeal Tisserant). Em todo caso, sua presenca
nas negociacoes nao garantiu inocencia nem pureza de intencoes'. Nao, isto
nao e apenas uma maliciosa fofoca, e calunia e voce sabe que a calunia e
uma injustica e que toda injustica exige uma reparacao. Nao, nao, nao. Dom
Nikodim nao foi enganado pelo cardeal Tisserant e o Cardeal Tisserant nao
foi enganado por Dom Nikodim. Voce e quem se enganou, e muito, ao pensar
que 'tudo que ele fez (O Cardeal) foi com o fito de negociar, nao importando
a que preco'.
Nem por um instante fez o que voce chamou de 'desejo de negociar, nao importando
a que preco'; nem por um instante isto passou pela cabeca deste descomprometido
filho de Lorraine, que , falando do Comunismo, em 1949, assim declarou sem
ambiguidade: 'Os acontecimentos na Polonia e na Hungria, seguidores pela
assinatura de acordos entre bispos e respectivos governos demonstram qual
futil e acreditar na palavra de governos os quais, inspirados pela filosofia
Marxista, unicamente, nao se lembram de manter esta mesma palavra e consideram
como legitima qualquer coisa que permita a eles o alcance de seus objetivos.'
Por outro lado, dentro do seu parenteses e que esta a verdade. Obviamente,
quando voce escreve: 'considerando tudo, penso que ele alimentou o desejo
(ou recebeu ordem para isso) para negociar, nao importando a que preco',
nos parenteses sim, voce nao corre nenhum risco de ter cometido um engano.
Uma ou outra ves alternativa e necessariamente verdadeira e a outra e falsa.(8)
O Cardeal tinha recebido diretrizes firmes, irrevogaveis, do proprio Papa,
e o Cardeal sempre foi um homem de Fe. Ele acreditava na autoridade, obedecia
a autoridade, mesmo num erro diplomatico ou politico.(9) Suas respeitosas
e filiais observacoes eram feitas de maneira absolutamente direta e inteiramente
as claras, para os cardeais seus colegas, bem como para os pontifices a
quem lealmente servia e, em particular, a Sao Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio
XII, Joao XXIII e Paulo VI.
Sr. editor, deixo a voce esta carta sem que tenha qualquer duvida sobre
o seu ponto de vista, mas ela me parece demasidamente breve (pois muito
mais ainda podia ser dito sobre o Cardeal Tisserant) mas nao em tom de preconceito,
num espirito caluniador como e o seu. Isto e o que espero ser capaz de dizer
e escrever na biografia que estou preparando, com dificuldade, por causa
do acumulo de documentacao com que venho trabalhando ha mais de 10 anos.
Pedido para ficar,
Sr. Tristemente Seu
Georges Roche
As Observacoes do Editorial de Jean Madiran
A analise final desta carta de Mons. Roche confirma tudo e nada contradiz.
Pois mesmo na versao de Mons. Roche, ainda encaramos a mesma importancia;
a impotencia da qual o Cardeal Tisserant foi cumplice ativo.
Aqui seu pronunciamento para a abertura do Vaticano II, em outubro de 1962
- o qual foi planejado pelo Cardeal Montini, aceito e docilmente proferido
pelo Papa. Joao XXIII insistiu no fato de que, considerando que os Concilios
anteriores tinham sofrido pressao exercida pelos poderes temporais, o Concilio
que ora se iniciava, gozava de um Clima de perfeita liberdade.
Falando desta maneira, o Papa afirmou aquilo que ele sabia ser inteiramente
falso. Ele proprio aceitava uma abominavel restricao da liberdade no Concilio.
Havia sido pressionado por um poder temporal e tinha cedido a esta pressao
de livre e espontanea vontade. Este Concilio, que se gabava de confrontar
e descer as raizes dos 'problemas deste tempo', estava condenado a permanecer
em silencio, com relacao ao mais serio , ao mais dramatico destes problemas:
a continua expansao do Comunismo Sovietico e sua dominacao escravagista.
Sem duvida alguma, os Concilio anteriores tinham sofrido a influencia ou
pressao de autoridades politicas, mas esta havia sido uma pressao de principios
Cristaos. Em contraste, o Vaticano II aconteceu sob a pressao. As condicoes,
e os limites ditados pela lei do Kremlin: foi proibido reiterar os apelos
da Igreja para uma mobilizacao geral contra o Comunismo.
Tal foi o exorbitante preco pago para obter a presenca inutil, no Concilio,
de certos 'observadores' Ortodoxos Russos, os quais estavam sob o controle
da K.G.B.
Mons. Roche alega que, neste assunto, o Cardeal Tisserant simplesmente cumpriu
as ordens, docilmente. Mas onde a decepcao e a traicao estao envolvidas,
a docilidade nao funciona como desculpa.
Eis que, dizendo-nos que o Cardeal estava simplesmente obedecendo aos seus
chefes, aos seus superiores, e que ele acreditava na autoridade, de forma
alguma serve para desculpa-lo. Ele nao seria desculpado, mesmo se fosse
verdade. Alem disso, nada do que foi dito e verdadeiro e a prova quem nos
da e o proprio Mons. Roche. Ele lembra que, bem no principio - como por
exemplo, a partir de 1940 - o Cardeal Tisserant tinha fomentado a acao Gaulista
dentro do Vaticano, o que foi, na realidade, uma categorica desobediencia
as ordens de Pio XII.
O Cardeal foi, todavia, capaz de desobedecer. Nao soube, porem, fazer o
mesmo quando devia, na hora certa.
Pensando bem, ele nem tinha necessidade de desobedecer; seria suficiente
simplesmente declinar da empresa, dizer a Joao XXIII que ele se recusava
a ser o negociador em Metz, assim como soube dizer Pio XII que se negava
a ser o arcebispo de Rheims.
Se Mons. Roche quer desculpar o seu Cardeal arvorando-se como defensor de
sua probidade, isto exigira que ele mostre mais imaginacao e de um certo
modo menos incoerencia.
Entretanto, se o Cardeal Tisserant negociou em Metz, por vontade propria
ou nao, isto e de importancia secundaria. O que e importante e a traicao
em si mesma; o que e importante e o desarmamento moral da Igreja, em seu
confronto com o Comunismo. Diante do Tribunal da Historia, isto constituira
a desonra daqueles que, de maneira autoritaria, impusera este desarmamento
moral na Igreja e quem sabem, eles proprios, ser tao desonestos e desonrados,
a ponto de esconder seu crime. Se aos olhos deles sua acao era salutar e
gloriosa, deviam orgulhar-se dela e engrandece-la. No Presente momento,
julho de 1984, 22 anos apos a conclusao do Acordo Vaticano-Moscou, estao
ainda esperando por uma declaracao do Vaticano, justificando, oficialmente,
este Acordo. Nao ha nenhuma desculpa admissivel. SE houvesse, eles nao teriam
hesitado em lancar mao desta justificativa em beneficio de sua causa.
O acordo infame esta ainda em vigor. O Vaticano ainda se considera prisioneiro
deste Acordo. E a verdade acerca do Comunismo e Solzhenitsyn. Deste 1952
esta autoridade nao mais pertence ao Soberano Pontifice.
Jean Madiran
Notas
1 - Dom Nikodim nasceu em 1929. Morreu nos bracos do Papa Joao Paulo I,
no curso de uma audiencia.
2 - Ninguem jamais supos que esta decisao pudesse ter sido tomada por outra
pessoa que nao o Papa Joao XXIII.
3 - Nunca se soube ter havido nenhuma referencia aberta, durante o Concilio,
a 'ordem de silencio conforme acordancia com os desejos do Papa'. Esta ordem
foi, de fato, imposta, atraves de meios obliquos e metodos enganadores.
4 - Entretanto, a frase continha um parenteses que Mons. Roche omite. Aqui
segue a setenca suprimida: O Cardeal Tisserant gostava de ser considerado
um Gaulista dos quatro costados (o que sem duvida alguma era) e um descomprometido
anti-Comunista (o que e muito menos plausivel).
5 - Nao posso acreditar que Pio XII possa ter aceitado Mons. Julien como
um representante nao oficial do Gal. De Gaulle junto a Santa Se. Nao estou
surpreso de encontrar Mons. Fontenelle e Mons. Martin nesta cela secreta
e especial do Vaticano, a qual tinha sido estabelecida em direta oposicao
aos desejos de Pio XII.
6 - Ate agora, nunca houve mencao alguma de que o Arcebispo de Rheims tenha
sido obrigado a dar honras militares formais a quem quer que seja.
7 - Uma delas e datada de 1949, a outra de 1951.
8 - Podiam ser ambas verdadeiras, ao mesmo tempo. Mas a afirmacao nao procurou
adotar alternativas. Algo completamente diferente foi dito: que se havia
sido possivel negociar desta maneira com Moscou, foi porque verdadeiramente
houve preparacao para negociar nao importando a que preco. E nisso que consiste
o escandalo, a vergonha da traicao. Isto parece nao ter sido notado por
Mons. Roche. 9 - O Acordo Vaticano-Moscou nao foi um erro diplomatico ou
mesmo um erro de natureza politica. Foi alguma coisa inteiramente diferente.
Constituiu-se em traicao religiosa. Certamente, teve consequencias politicas.
Certamente, derivou de um erro de julgamento. Mas, repito: ESSENCIALMENTE
ELE CONSTITUIU-SE EM TRAICAO RELIGIOSA e, diante do tribunal da Historia,
ele sera lembrado como a desgraca do seculo XX e da Santa Se.