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EMOP - SECAO XV, REFLEXOES SOBRE O ATO DE CONSAGRACAO
REFLEXOES Sobre o Ato de Consagracao realizada pelo Papa Joao Paulo II, em Fatima, a 13de maio de 1982.  Pe. Joseph de Sainte-Marie, O.C.D. 


Introducao -

Com exatamente o intervalo de um ano entre elas, a Igreja tem vivenciado dois eventos de excepcional importancia. A 13 de maio de 1981, uma mao criminosa e sacrilega perpetrou um atentado contra a vida do Vigario de Cristo. Em 3 de maio do ano seguinte, o Papa foi em peregrinacao ao Santuario de N. Senhora de Fatima agradece-la por te-lo salvo de um perigo mortal. A pessoa do Supremo Pastor, representante de toda a Igreja, foi o alvo, e a Igreja, em sua totalidade, foi atingida por aquele drama. Mais que isso: movido pela cobertura de todos os meios de comunicacao de massa, o mundo inteiro sentiu o choque. Em sendo assim, nao podemos subestimar tal acontecimento, como se ele fosse um simples fato registado, jornalisticamente, nas "Noticias" do dia e rapidamente esquecido, nao passando e ocorrencia destinada a entreter o publico leitor. Nem tampouco podemos estar satisfeitos em ver a piedade popular - mobilizada, convenhamos, de maneira suspeita. Precisamos de momento de reflexao para sentir que algo da maior seriedade ocorreu, que estes eventos tem um significado, de primeira importancia para a Igreja, fazedo com que ela possa discenir sobre a resposta a ser dada, aqui e agora, no que se relaciona ao apelo lancado por Deus atraves desses fatos. Para que configuramos e entendamos o comando e a forma de responde-lo, e preciso que o comando e a forma de responde-lo como uma questao que interessa a toda a Igreja. 

Todos devem trabalhar em prol disso, conforme Sua posicao e seu talento. O Padre, fazendo uso de seu carisma de discernimento e da autoridade que possui. O Cristao, com sua fe e aquele senso de fidelidade que lhe e peculiar, e tambem lancando mao de sua generosidade; os teologos, cumprindo a tarefa de que foram incumbidos, que e iluminar e esclarecer a doutrina. 

Esta e, eminentemente, a perspectiva eclesial que norteia as reflexoes aqui apresentadas. Elas procuram abranger os dois eventos que acabamos de relembrar, no contexto de toda a verdade historica contida nos mesmos. O ato de consagracao realizado a 13 de maio da-nos a chave. E isto porque, antes de apresentarmos aqui o resumo da reflexao do tema tao complexo, diremos que este referido ato funciona como eixo de nossa analise. Comecamos por reproduzir o texto todo e segui-lo, acompanhado de uma breve analise, que revelara sua estrutura e principais elementos. Depois disso, como o caso de Fatima parece originar-se nesse gesto papal, vemo-nos na obrigacao de responder a duas questoes fundamentais, a primeira delas na ordem a historia: ate que ponto o ato de 13 de maio de 1982 preencher os requesitos profeticos da Mensagem de Fatima? A segunda; e de ordem teologica: de que maneira a mensagem e o ato correspondem a economia divina da salvacao? Esta segunda questao e o "Carro Chefe" de nossas reflexoes. Mas, como a resposta a ser dada envolve fatos recentes da Historia e profecia, devemos comecar recordando estes fatos. Como podemos ver, sao fatos inerentes a historia daquela salvacao ainda hoje operante. 

1 - O ATO DE CONSAGRACAO

Aqui, entao para iniciar, apresentamos o texto do ato da consagracao realizada pelo Santo Padre em 13 de maio 1982, na praca fronteirica a basilica de N. Senhora de Fatima.(1)

1. a) "Viemos em busca de Vossa protecao, o Santa Mae de Deus!" ("sub tuum praesidium confugimus,Sancta Dei Genitrix"). Quando pronuncio as palavras daquela antifona, que a Igreja de Cristo tem rezado atraves dos seculos, aqui estou neste lugar escolhido por Vos, o Mae especialmente louvada. 

b) Estou aqui, em uniao com todos os pastores da Igreja, em especial interacao que ratifica a nossa estrutura como um corpo e um colegiado, da mesma maneira que, pela vontade de Cristo, os apostolos permanecem unidos a Pedro. 

c) E entre dois lacos desta unidade, pronuncio as palavras do presente ato, atraves do qual desejo obter e firmar o dom da Esperanca, na angustia por que passa a Igreja no mundo atual. 

d) Ha 40 anos atras e tambem ha 10 anos, vosso servo, o Papa Pio XII, tendo diante dos olhos as tristes experiencias vividas pela familia humana, confiou e consagrou ao Vosso Imaculado Coracao o mundo inteiro e, especialmente, aqueles povos que eram, de modo especial, objetos de vosso amor e de Vossa solicitude. 

e) Tenho diante de meus olhos, hoje, o mundo dos homens e das nacoes e, no momento, desejo renovar o ato pelo qual meu predecessor na Cadeira de Pedro confiou-o. O mundo do segundo milenio a correr ao encontro do novo seculo, o mundo contemporaneo, o mundo dos nossos dias!

f) Recordando as palavras de N. Senhor: "Ide e ensinai a todas as nacoes ... Eu vos asseguro que estarei convosco ate o fim dos tempos" (Mt. 28, 19-20). A Igreja tem renovado, no Concilio Vaticano II, a consciencia de sua missao neste mundo. 

g) Eis porque, o Mae dos homens e dos povos, Vos que conheceis todos os sofrimentos e todas dores sofridas por eles, Vos que sentes, como so uma mae pode sentir, todas as lutas travadas, estas que estao convulsionando o mundo contemporaneo, recebei o nosso apelo, movido pelo Espirito Santo e que fazemos diretamente ao Vosso Coracao e, com o vosso amor de Mae e a Vossa mao amiga, abracai nossa humanidade, que oferecemos e consagramos a Vos, cheio da inquietude pelo destino terrestre, o eterno dos homens e dos povos. 

h) Confiamos e consagramos a Vos, de maneira especial e consagramos a Vos, de maneira especial, os homens e os povos que tem especial necessidade deste ato e por isso sao confiados e consagrados deste ato e por isso sao confiados e consagrados a Vos. 

i) "Sob Vossa protecao nos refugiamos, Santa Mao de Deus". Nao rejeiteis nossas oracoes quando formos postos a prova. Nao as desprezeis. Aceitai nossa humilde confianca e o ato pelo qual nos confiamos a Vos!

2. a) "Deus amou tanto o mundo, a ponto de entregar seu unico e amado filho: e aquele que Nele crer, nao perecera e sim tera a vida eterna". (Joao. 3,16)

b) E precisamente esse amor, que fez com que o Filho de Deus consagrasse a Si mesmo por todos os homens (Joao, 17,19). "E por eles me sacrifico, para que possam tambem ser santificados pela verdade". 

c) Em virtude daquela consagracao, os discipulos de todas as epocas sao chamados a promover a salvacao do mundo, a acrescentar algo aos sofrimentos de Cristo e pela salvacao de Seu Corpo, que e a Igreja. (Cf. 2. Cor. 12,15; Col. 1,23). 

d) Diante de Vos, o Mae de Cristo, diante de vosso Imaculado Coracao, desejo, hoje, juntamente com toda a Igreja, unir-me ao nosso Redentor em sua consagracao pelo mundo e pelos homens, pois e somente em Seu Divino Coracao que a Igreja detem o poder de obter o Perdao e fazer a acao reparadora. 

e) O poder daquela consagracao se estenda a todos os homens, povos e nacoes, ultrapassa todo o mal que o espirito das trevas e capaz de semear no coracao do homem e em sua historia e que, de fato, tem proliferado em nossa epoca. 

f) Aquela consagracao de nosso Redentor, a Igreja, o Corpo Mistico de Cristo se une, no ato promovido pelo Sucessor de Pedro. 

g) Quao profundamente sentimos a necessidade de consagrar a humanidade e o mundo nosso Mundo contemporaneo, em unidade a Cristo Jesus. O trabalho de Cristo, feito atraves da redencao, deve ser de fato partilhado com o mundo inteiro, e por meio da mediacao da Igreja. 

h) Em assim sendo, como nos entristecemos quando alguma coisa na Igreja e em cada um de nos vem em oposicao a santidade e a consagracao! E quao pesarosos ficamos ao constatarmos que o convite a penitencia, a conversao e a oracao, nao encontrou ainda guarida no coracao dos homens. 

i) Quao amargurados ficamos pelo fato de que muitos sao frios e indiferentes ao trabalho de Cristo atraves da redencao! E, o "Que mais falta acrescentar aos sofrimentos de Cristo" (Col. 1,24) e provido inadequadamente em nossa carne!

j) Abencoadas, entao, sejam todas as almas que devem obedecer a chamada do eterno amor. Abencoadas sejam aquelas que, dia apos dia, com uma inesgotavel generosidade, aceitem Vosso convite, O Mae, para fazer aquilo que Vosso Jesus diz (Cf. Joao 2,5) e dar a Igreja e ao mundo o sereno testemunho de uma vida inspirada no Evangelho. 

k) Abencoada sede Vos, acima de tudo. Vos, a Serva do Senhor, obediente, da maneira mais perfeita, a este divino apelo. 

l) Louvores a Vos, que vos unistes totalmente a consagracao redentora de Vosso Filho!

m) Mae da Igreja, ensinai ao povo de Deus o caminho da fe, da esperanca e da caridade! Ajudai-nos a viver junto a toda verdade que advem da consagracao de Cristo, pela salvacao da familia humana no mundo contemporaneo. 

3. a) Confiamos a Vos, o Mae, todos os homens e todos os povos, confiamos a Vos, tambem a propria consagracao do mundo, colocamos este ato em Vosso Coracao Maternal. 

b) O Imaculado Coracao! Ajudai-nos a vencer a ameaca do mal, que tao facilmente cria raizes no coracao dos homens e que, atraves de seus mensuraveis efeitos, parece esmagar nosso tempo e fechar os caminhos na direcao do futuro. 

c) Livrai-nos da fome e da guerra!

Da guerra nuclear e de sua incalculavel auto-destruicao, das guerras de todos os tipos, livrai-nos!

Dos pecados contra a vida do homem, desde os seus primeiros momentos, livrai-nos!

Do odio e degradacao da dignidade dos filhos de Deus, livrai-nos!

De toda especie de injustica na vida social, nacional e internacional, livrai-nos!

Da prontidao em transgredir os mandamentos de Deus, livrai-nos!

Da tentativa de erradicar dos coracoes humanos a propria verdade de Deus, livrai-nos!

Dos pecados contra o Espirito Santo, livrai-nos!

d) Recebei, o Mae de Cristo, este grito repleto dos sofrimentos de todos os homens, que terminam por pagar o preco de seus pecados com os sofrimentos de todas as sociedades!

e) Uma vez mais, na historia do mundo, deixai que o infinito poder de Vosso misericordioso amor seja revelado! Possa ele derrotar o Mal! Possa ele transformar as consciencias! Possa Vosso Imaculado Coracao proporcionar a todos a luz da esperanca!

E com um certo receio que me comprometo analisar um texto tao carregado de emocao. Sinto uma especie de medo - medo de profanar um segredo, embora ele tenha sido transmitido para toda a Igreja. Mas, alem da dimensao de suas palavras, alguns textos preservam seu misterio; e o texto que contem este ato historico e particularmente resistente. E e por esta mesma razao que assumi a responsabilidade de sua analise, examinando minha reacao inicial e recusa, mas conservando seu senso de profunda veneracao pelo homem que, aqui poe a descoberto, diante de nos, seu coracao de Pai universal. A analise deve ser feita, uma vez que vem em proveito de uma melhor compreensao de suas intencoes e de uma melhor resposta a sua convocacao. 

Desde o inicio, uma luz quatro vezes maior aparece para iluminar o ato inteiro. Primeiro raio e a misericordia, pois e atraves dela que alguem consegue o recurso dado pela oracao Sub Tuum - "Sob Vossa Protecao", ou, mais exatamente, de acordo com o original grego, "Sob Vossa Misericordia" (eusplanchia). O segundo raio e que a misericordia deve chegar ate nos por intermedio da Abencoada Virgem. As duas ideias, intimamente ligadas, unidas aparecem, formuladas implicita ou explicitamente, ao final da primeira parte (1, i) e, ao termino do ato propriamente dito (3, e). O ato e, pois anexado a elas. 

O terceiro e o quarto raios de luz estao tambem interligados, mas em forma de contraste, embora o contraste ponha fim a uma continuidade. Em um dos lados, o uso do sub tuum, uma das mais antigas formas de oracao a Abencoada Virgem, coloca o presente ato na continuidade da tradicao, enquanto que, no outro lado, a mencao o "lugar escolhido" por Maria apresenta-se como uma resposta a um fato profetico contemporaneo: Fatima e, incontestavelmente, a maior profecia do seculo XX. Ela o envolve em toda a sua inteireza -eis aqui um dos pontos que teremos de demonstrar. Podemos observar, de passagem, um novo reconhecimento oficial da autenticidade do fato ocorrido na Cova de Iria, atraves da expressao contida nas palavras usadas pelo Papa: "neste lugar escolhido por Vos". 

Nos paragrafos seguintes, o Santo Padre e inspirado por um duplo interesse: realizar seu ato em continuidade aqueles ja concretizados anteriormente e os que estao ainda por acontecer e para manifestar seu desejo de juntar-se aos apelos formulados pela Abencoada Virgem de Fatima. Quer dar o seu ato uma dimensao Colegiada (1, b-c) como N. Senhora solicitou e, em fazendo isto, afirma seu desejo de renovar aquilo que seu predecessor, Pio XII, havia realizado, em 1942 e 1952 (1, d-e). Acrescenta, por conta propria, as mais urgentes necessidades do mundo atual. Mobiliza um gesto de pleno acordo com as intencoes do Concilio Vaticano II (1, f). 

Depois dessas abordagens preliminares, poe sua enfase no carater dramatico do conflito entre o bem e o mal. So entao o Papa centraliza o ato de consagracao propriamente dito (1, g). E "nosso mundo humano", em sua totalidade, que ele "confia e consagra" a Maria, todavia com uma mencao especial para a Russia, cuja referencia esta nos atos presididos por Pio XII, expressando seu desejo de unir-se aos apelos transmitidos pela "Mae dos homens e dos povos", neste "lugar escolhido" por Ela e manifesto aos olhos do mundo. (1 h; cf. 1, a,d). 

A segunda parte do ato de consagracao tem como proposito primordial lembrar sua fundamentacao evangelica: a consagracao de Cristo a Si mesmo, imolando-se em sacrificio, pois, assim, o mundo poderia ser consagrado a Seu Pai (2, a-b; citacao de Joao 3, 16; 17, 19). Porem, termina sendo concluida na forma e uma nova e multipla consagracao aquela que Cristo fez, de Si mesmo, pelo Seu sacrificio na cruz, tem valor universal e permanente; guardar nela mesma o poder de triunfar sobre todo o mal (2, e). Nela estao centrados as bases de toda Consagracao Crista. Os discipulos e toda a Igreja sao chamados a se unirem a ela. (2, c, f). 

Eis ai porque Joao Paulo II, pessoalmente disse: na presenca de Maria, ele se congrega ao Redentor "na consagracao de si mesmo, pelo mundo e por todas os homens", incluindo tambem a Igreja, em seu ato pessoal (2, d; cf 2, f). Nisto, devemos perceber um segundo ato de consagracao (e ate um terceiro), um ato exigido, sem duvida, pelo anterior, mas diferente dele. O primeiro evidenciava a consagracao do mundo a Maria; o segundo, a consagracao do Papa a Deus, em uniao com a consagracao sacrificial de Jesus. 

Mas, na expressao "com toda a Igreja" e que o Papa assim se oferece e consagra a si mesmo; ele deseja incluir isso em sua consagracao pessoal (2, d). Ele abracara novamente a mesma ideia, um pouco mais tarde e atraves de uma frase levemente diferente, na qual pode ser vista uma oferta consagratoria da Igreja em Si Mesma (2, f). 

A oracao do Santo Padre continua com uma evocacao cheia de tristeza, diante da constatacao do reinado do mal no mundo de hoje. Deste modo apresenta os dois significados da palavra "consagracao", de como ela e usada na passagem de Sao Joao acima transcrita: Sacrificio e santificacao. O poder esmagador do mal, de fato, mostra o quanto o mundo atual necessita daquele sacrificio redentor a fim de ser santificado (2, g). E um penetrante olhar na Igreja evidencia quao pouco e inadequadamente ela tem respondido a chamada ao sacrificio, que nao e outro senao participar do trabalho da Redencao (2, h-i; transcricao do Col. 1, 24). E a propria Virgem Abencoada que hoje nos chama e nos conduz por este caminho; e o Papa permanece abencoando aqueles que tem correspondido aos pedidos Dela (2, j). Deste modo, ele revela a nos todos o profundo significado das ordens profeticas da Mae da Igreja. Em Sua chamada a oracao e a penitencia, N. Senhora nos convida a uniao atraves do sacrificio e a consagracao de Cristo na Cruz. Assim Ela nos induz a que nos consagremos com e em Cristo. E com Ela propria, tambem, pois mais do que qualquer outro membro da Igreja, Ela "esta integralmente unida a consagracao redentora de Seu Filho" (2, l). 

Por esta razao, a consagracao e de aspecto triplo e esta segunda parte tem de ser cumprida, comecando com aquela de que participam Cristo e Maria: a consagracao do Papa, e da Igreja, em sua totalidade. A primeira ja foi realizada, pelo menos em carater de oferta, atraves deste mesmo ato constituido mediante as palavras do Papa. A segunda deve ser considerada como parte integrante da primeira. Entretanto, seu significado nao estara completo ate que alguem se conscientize das ameacas que pressionam a Igreja e o mundo, simultaneamente. De antemao, o Soberano Pontifice, que melhor seria fosse chamado de Soberano Padre (devido a sua acao de vigario, em seu ministerio) oferece aquele holocausto da Igreja em uniao com Cristo e pela salvacao do mundo. Finalmente, no resto de sua oracao, o Santo Padre convoca cada um dos fieis para que se junte a ele, pessoalmente, no sacrificio redentor e consagrador. Como podemos observar, trata-se de um unico sacrificio de uma unica consagracao, mas a ser efetivada com Cristo e Maria, naquela tripla dimensao: a cabeca visivel da Igreja, a Igreja em si mesma, como um todo, e cada um de seus membros. 

A referencia ao sacrificio de Cristo vem primeiro (2, a-b) e se aplica, prioritariamente, a Abencoada Virgem (2, l), a Sua uniao com a "consagracao redentora de Seu Filho", constituindo-se a fundacao da consagracao do mundo ao Seu Coracao (1, g), como tambem a da Igreja (2, m). Nao existe declaracao explicita a proposito daquele efeito, mas certamente a consagracao a Maria da o passo inicial e faz a invocacao contida no paragrafo da segunda parte, onde esta fundamentada (2, m). Alem disso, aquela uniao e a pedra angular a litania de invocacoes que povoam a terceira e ultima parte do ato de consagracao. 

Com a consagracao de si mesma, da Igreja, e cada um de seus membros, o Papa confia o ato de consagracao a Maria, em colocando-o sob o jugo de Seu Coracao Maternal (3, a) e implora que Ela o ajude "a superar as ameacas do mal" (3, b); devemos fazer o mesmo, vivendo nossa consagracao a verdade, ou seja, respondendo ao Seu apelo por oracoes e sacrificios cuja intencao seja a salvacao do mundo inteiro. Entao, voltando a primeira consagracao, do mundo a Maria, o Santo Padre pede-lhe novamente para que sobre ele reine. Ela detem esse poder por causa de Sua uniao ao sacrificio redentor de Cristo (2, l). Desta maneira, para Ela, a subordinacao ao sacrificio unico da salvacao esta em conformidade plena com a vontade divina, manifestada em Fatima. Joao Paulo II direciona o apelo em prol da libertacao: "da fome, da guerra, da guerra nuclear (...), livrai-nos, livrai-nos". E pela acao salvifica da propria Virgem Abencoada e de Seu Imaculado Coracao, que a divina Misericordia, o recurso de ultima instancia a nossa esperanca, deseja, hoje, espalhar-se e triunfar neste mundo (3, e). 

Aquela verdade, que e o centro da Mensagem de Fatima, certamente nao esta formulada, nesses termos, naquele ato de consagracao, mas e, indiscutilvemente, a base do apelo com que a consagracao termina, apelo este que se nos apresenta em total clarividencia, transparente e caracterizado. Como frisamos acima o apelo final e pleonastico, uma vez que o ato e aberto mediante estas mesmas invocacoes, que sao repetidas no final da primeira parte (1, a, i). A verdade por ele viabilizada e o pensamento dominante de toda a oracao, pensamento que se encontra totalmente unido a Mensagem profetica de Fatima e a divina economia da salvacao - relacao que estavamos tentando estabelecer, momentos antes. 

Segue-se uma oracao especial pela paz: "O Atlantico Sul". Nao vamos analisa-la aqui, porque nao faz parte do ato de consagracao. 

Parece-me necessario realizar uma analise daquela oracao, devido a sua profundidade e a sua complexidade. Suas linhas estruturais tem de ser demarcadas, como tambem os aspectos e o traco-de-uniao, as vezes sutil, que mantem a unidade conteudistica daquela prece, e revela questoes a serem exploradas. Do ponto de vista historico, o primeiro fato a ser observado e o reconhecimento publico e solene das profecias de Fatima, que passam de mao em mao, denunciando os males e perigos que pesam sobre o mundo. Por apresentar dupla dimensao em seu contexto interpretativo, levanta questionamentos que devem ser examinadas, para que saibamos onde esta a parte historica e onde se insere o conteudo real da mensagem da Abencoada Virgem. 

Sugere ainda uma outra questao, de ordem teologica, concernente a relacao entre a hierarquia Apostolica e o carisma profetico no divino governo da Igreja. Uma palavra deve ser dita sobre isto, pois, em minha opiniao, nao foi suficientemente esclarecido, ate agora. Porem, as questoes teologicas centrais, levantadas pelo referido ato, sao precisamente aquelas que se referem a consagracao. Temos visto, de diversas maneiras, que a palavra (consagracao) pode assumir diferentes aspectos. Toda uma teologia a respeito da consagracao teria de ser feita, no sentido de estudarmos estes aspectos. Contudo, nada mais existe que precisa ser inventado. A elementacao apresentada pelos teologos e pelo proprio magisterium tem, frequentemente estado presente em todas as analises formulados. O que ainda falta e uma sintese. Entre outras coisas, isto tornaria possivel detectar objecoes a consagracao a Maria e, acima de tudo, mostraria quao topica e a consagracao e quao plenamente ela esta em conformidade com a divina economia da salvacao. Nao ha espaco, num simples artigo, para dar resposta adequada a todas essas questoes; Elas sao inviaveis, porque tampouco sua formulacao e clara e precisa. Pelo menos podemos dizer aqui que o nosso procedimento parece estar plasmado numa postura que, seguramente, nos levara a um maior esclarecimento. 

II - A PROFECIA NA HISTORIA CONTEMPORANEA

A despeito de quao delicados possam ser, devemos enfrentar os problemas teologicos e, em primeiro lugar, aqueles que quardam implicacoes historicas com o contexto do que estamos tratando. A teologia e o trabalho da Igreja, e aqui nos ocuparemos de fato que nao podem ser omitidos ou silenciados. A primeira tarefa, neste caso, e historico: estabelecer os fatos com a maxima precisao possivel. 

Antes de mais nada, devemos mostrar a importancia, no ato de consagracao de 13 de maio de 1982, de em reconhecimento oficial, relativo a aparicao da Abencoada Virgem de Fatima. Pio XII, Joao XXIII, Paulo VI ja tinham dado esta aprovacao formalizada.(2)

Mas, quando este reconhecimento foi renovado, Joao Paulo II realizou um ato de extrema importancia, porque, por meio de sua propria pessoa, a autoridade hierarquica atribuida, novamente, ao ato, alcancou o maior teor de formalidade. Ao declarar Fatima o "Lugar escolhido" por Maria (1, a), o Papa, automaticamente, ja oficializava que Ela estivera ali. E todo o restante do texto, em seu esforco para ser condizente aos pedidos de N. Senhora, proclama, nao menos clara e autenticamente, a urgencia de sua mensagem. 

Alem do texto propriamente dito, da consagracao, ha tambem outros ligados a ele, nos quais o Santo Padre tem multiplicado declaracoes, reconhecendo a autenticidade e a extrema urgencia da Mensagem de Fatima. Uma das mais claras e diretas alocucoes foi aquela feita pelo Papa, no momento de sua chegada, a este "lugar Escolhido", no fim da tarde do dia 12 de maio. Refere-se ele a coincidencia de datas - o atentado contra sua vida, a 13 de maio de 1981, e o aniversario da primeira aparicao de N. Senhora, em 1917 afirmando que viu nisso "nao uma simples coincidencia, mas sim os designios da Providencia, um chamado, e talvez um lembrete, para chamar nossa atencao sobre a mensagem que veio daqui ha 65 anos atras." Desenvolveu esta mesma ideia em sua homilia, no dia 13, dizendo que "reconhecia (na coincidencia de datas) um aviso especial para que viesse aqui."

Seria possivel, mas parece superfluo, multiplicar citacoes. Todo que elas fariam seria confirmar a primeira e principal manifestacao daquele reconhecimento oficial, viabilizado pela propria viagem do Papa a Fatima. 

Estabelecido o fato, o que tem de ser explicado e o caminho da Autoridade Apostolica e de como justifica sua atitude. Que razoes levaram-no a reconhecer a intervencao divina neste lugar? Essas razoes se apresentam dentro de dois angulos, correspondentes dois tipos de intervencao. Devemos distinguir a mensagem e seu conteudo, do evento das aparicoes nas quais a mensagem foi dada a Igreja. Dentro do primeiro aspecto, colocamos as razoes de ordem doutrinaria e no segundo aspecto, aquelas que podem ser chamadas de razoes de ordem carismatica. A homilia do dia 13 insistiu no primeiro destes aspetos, com uma rememoracao dos principios,de acordo com os quais "a Igreja avalia e julga as revelacoes profeticas, submetendo-as ao criterio de sua conformidade com a Revelacao publica unica (...) a verdade e o chamamento do proprio Evangelho". 

Isto extrapolaria o conteudo da mensagem. Da mesma forma, como para a autenticidade do fato das aparicoes exige-se a conformidade de sua mensagem com a do Evangelho, isto representa apenas um criterio entre outros, e embora nao haja qualquer duvida sobre o primeiro, e talvez indispensavel uma condicao preliminar. As razoes reais para reconhecer os fatos sao de uma outra ordem, que pode ser chamada, por analogia, de "discernimento dos espiritos", discernimento dos carismas. E nesse sentido que Joao Paulo nos convida a reconhecer "os sinais dos tempos", como na declaracao em que se referiu: "no limiar do seculo XX (...) a Senhora da Mensagem parece ler todos esses referidos sinais com uma percepcao especial." (Homilia do dia 13, numero 6) E claro que estes "Sinais dos Tempos" se encontram entre os principais criterios, no discernimento dos carismas profeticos. As duas unicas razoes dessa ordem, evocadas aqui, pelo Papa, sao: a coincidencia de datas, acima mencionada e a coincidencia da Mensagem de Fatima com a gravidade dos males que pesam sobre o mundo, especialmente o ateismo militante (ato de Consagracao, 3 c; setima invocacao). Dai se origina a solicitacao de uma especial consagracao da Russia, a primeira vitima de um dos mais aterrorizadores instrumentos daquele ateismo. Sera lembrada - uma outra "coincidencia" - que foi no mesmo mes, outubro, 1917, que a Revolucao Bolchevique de St. Petersburgo (agora Leningrado) alcancou o triunfo, e tambem neste mesmo mes de outubro, viu-se o triunfo da Abencoada Virgem atraves do milagre do Sol, em Fatima. Essas razoes nao foram discutidas, porem, Joao Paulo II fez muitas alusoes ao combate entre "o bem e o mal", a luz do que lhe inspirou a Escritura, especialmente o Gen. 3,15 e o Apoc. 12 (ele tambem citou, no mesmo sentido, o livro de Judite, "Homilia do dia 13, numero 4", cuja mensagem faz deste ponto seu alvo) eles sao suficientes para nos mostrar que linha deve ser tomada no trabalho de discernimento. 

Alem do mais, observemos (como ja procedemos antes) que Pio XII seguiu esta mesma linha, quando escreveu sua grande Enciclica sobre o Sagrado Coracao, Haurietis Aguas, e comecou por mostrar a verdade doutrinaria daquela devocao, a qual e especificamente enderecada ao misericordioso amor de N. Senhor Jesus Cristo, e somente depois e exposta a decisiva importancia do carisma de Paray-le-Monial, em sua realizacao e em seu desenvolvimento. O Proprio Leao XII, quando consagrou a humanidade ao Sagrado Coracao, em fins do seculo passado, nao hesitou, apos lembrar a fundacao doutrinaria de seu ato, em mencionar uma ajuda especial, no minimo "providencial", se nao miraculosa, que finalmente agilizaria sua acao. Ele contraiu uma doenca muito seria, pos sua vida em perigo, e foi curado de uma maneira como ninguem explica. Deve-se isto ao carisma de uma religiosa, posteriormente beatificada por Paulo VI, a Irma Maria do Divino Coracao, Droste zu Vischering, que lhe revelou o significado providencial da doenca e sua cura. Esses fatos, hoje, sao conhecidos e admitidos. Eles mostram que, longe de serem uma novidade absoluta, o curso e os atos de Joao Paulo II sao, pelo contrario, parte de uma tradicao solidamente ja estabelecida. Voltamos, portanto, aquele ponto em, que tratamos das relacoes entre o apostolado hierarquico e a profecia. 

Devemos, ainda tomar nota da intima relacao que existe entre os atos do Soberano Pontifice e sua denuncia sobre os perigos que pesam sobre o mundo. Dissemos acima que o Papa nos convida a ver, nos perigos, um sinal dos tempos, e que sua coincidencia (a dos perigos) com os apelos de Fatima, embora uma das mais fortes razoes para que se recomende a autenticidade dos apelos de N. Senhora. E nao sera superfluo se pararmos um momento, para ver em como o Papa nos convida a interpretar este sinal. Citacoes sobre o assunto poderiam multiplica-lo a uma impressionante colecao de textos. La, repetidamente, Joao Paulo II pode apresentar-se - e fez disso um proposito de seu ato de consagracao - como "o continuador do trabalho de Pio, de Joao e de Paulo" (Homilia do dia 13, numero 11). Somos advertidos e lembrados, em particular, do solene aviso emitido por Paulo VI, em Fatima, a 13 de maio de 1967: "O mundo esta em perigo". Joao Paulo II, em seu retorno, lembra-nos deste perigo, em sobrios, mas dramaticos termos, em seu ato de consagracao (1, g; 3, c). Porem, ao mesmo tempo, ressalta que o mal tem sua causa real: o pecado. Trata disso particularmente, em sua homilia de 13 de maio, em que denuncia "o endurecimento do pecado e, finalmente, a negacao de Deus. A programada obliteracao de Deus por um mundo de pensamentos exclusivamente humanos (...) A rejeicao de Deus pelo homem", uma rejeicao que "conduz logicamente a rejeicao do homem por Deus", (cf. Mt. 7, 23; 10, 33 "para a danacao" (numero 7). Deste modo, ele continua: "O colapso da moralidade leva ao da sociedade" (ib). E porque esses males sao tao serios e que "O Vigario de Cristo" vem a frente, "como testemunha dos perigos quase apocalipticos que pressionam as nacoes, a humanidade, o sucessor de Pedro vem aqui com uma fe ainda maior na redencao do mundo, naquele salvifico Amor que e sempre mais intenso, sempre mais poderoso do que todo o Mal" (numero 11). Postas em confronto com a ameaca, a fe e a esperanca na misericordia, tornar-se-ao solidas, na renovacao dos atos ja efetivados pelo proprio Joao Paulo II e seus predecessores: ele "consagrara a Ela, mais especialmente, aquelas pessoas que particularmente necessitam, desta consagracao." (ib). 

Em resumo, e o pecado - porque leva a destruicao de toda a moralidade e a rejeicao da humanidade por Deus. Humanidade esta arrastada para o declinio por estas ameacas "quase apocalipticas", suspensas, como a espada de Damocles, sobre nossas cabecas.(3)

E a humanidade nao tem salvacao, a nao ser pela Misericordia do Salvador, que deseja da-la atraves do coracao de Sua Mae. Este e o ponto central da Mensagem de Fatima. 

1 - FATIMA - HISTORIA E MENSAGEM

Qual, entao, e a mensagem de Fatima? Primeiramente, como chegamos a conhece-la? Qual e sua historia? Hoje e possivel responder a primeira pergunta, mas a segunda e mais dificil de esclarecer e isto por varias razoes. O primeiro impasse e que nem todos os documentos foram acessiveis. Alem disso, a mensagem em si, foi revelada aos poucos, por estagios. Uma terceira razao se ergue do fato de que, um grupo de historiadores e teologos se recusa a reconhecer aquela disposicao providencial, negando que a missao tenha sido formalmente confiada, pela Abencoada Virgem a Irma Lucia, tornando, assim o trabalho de pesquisa bem mais complexo. Finalmente, ha ainda uma dificuldade, e nao a menor delas, derivada da conotacao politica da mensagem; ate que ponto e pruente alguem referir-se a ela? Por tudo isto nao foi possivel ainda escrever a completa historia de Fatima. Entretanto, um certo numero de pontos decisivos pode ser estabelecido, com seguranca, capacitando-nos a delinear a essencia da mensagem de Fatima. 

Com referencia a este enfoque historico do evento, a novidade e que a mensagem nao foi transmitida de uma vez so ou dentro de limites estreitos de tempo, como em Lourdes, por exemplo, onde tudo aconteceu entre 11 de fevereiro e 16 de julho de 1858. Aqui, pelo contrario a fragmentacao da profecia levou muitos anos. Alguem deve mesmo dizer que ela ainda nao se completou, haja vista que, deste 1917, vem ela percorrendo todo o seculo XX, o qual iluminam com sua luz sobrenatural. Mas, para entendermos como essa iluminacao tem sido progressiva, devemos distinguir a historia das comunicacoes divinas feitas as proprias testemunhas da historia, da manifestacao da Igreja, por testemunhas dos depoimentos alusivos as comunicacoes. Os dois grupos nao tem opinioes coincidentes com relacao as datas do acontecimento. Ha, frequentemente, uma lacuna, algumas vezes, importante, entre as datas defendidas pelos primeiros e as que sao aceitas pelo segundo grupo e isto se da por vontade mesma de Deus. 

Concernente a primeira historia, que e a principal e aquela que consideramos, aqui. Os fatos profeticos que a constituem podem ser divididos em 3 periodos: antes de 1917, em 1917 e apos 1917. 

- Antes de 1917: um tempo de preparacao. 

Em 1915 e 1916, a Europa estava em guerra. Em 6 ocasioes, um anjo apareceu as criancas. As primeiras 3 vezes de uma maneira velada e nas tres vezes sequentes, sob a forma de um homem muito jovem. Durante estas tres ultimas aparicoes, ele, primeiramente, convidou-as a rezar (primeira aparicao) a se sacrificarem (segunda aparicao) e a pedirem a paz, fazendo reparacao pelos pecados e salvando os pecadores. Entao tendo completado a preparacao das criancas a futura missao, em as levando a entrar em comunhao, atraves da Eucaristia, com a oracao e o sacrificio redentor de Cristo (terceira aparicao) nao mais retornou. A densidade do significado dessas tres ultimas "visitas" do anjo e surpreendente e, o mais importante: da-nos a chave para que possamos desvendar o misterio de Fatima; a salvacao oferecida a um mundo pecador por intermedio da divina Misericordia, a nos doada como presente dos Coracoes, de Cristo e da Abencoada Virgem. "E para voces". Esta declaracao e de extrema importancia, pois nos convida, de inicio, a considerar o Imaculado Coracao de Maria o centro da Mensagem de Fatima, apenas no misterio de Sua uniao com o Coracao do Seu unico Mediador. Por estes fatos, nao devemos esquecer, ela nao sera conhecida nem divulgada a todos, tao cedo!

- 1917: O ano decisivo

Este e o ano decisivo das 6 aparicoes da Abencoada Virgem, de 13 de maio a 13 de outubro. A Europa recupera a paz, mesmo que estes sinais ainda nao sejam perceptiveis. Essa paz e anuciada pela Abencoada Virgem. Mas, em meio ao conflito que ainda perdura, uma nova ameaca surge, nao apenas contra a Europa, mas contra a humanidades inteira - a ameaca da Revolucao Comunista. Outubro de 1917 presenciou o inicio de seu triunfo e de sua conquista.(4)

E apenas em vista deste fato e que a mensagem da "mulher mais brilhante que o sol" adquire seu pleno valor. Podemos resumir o significado disto, por enquanto, mas para percebe-lo com mais praticidade devemos observar alguns de seus principais aspectos, de acordo com a seqencia na qual, historicamente, foi revelado. 

Na primeira aparicao, duas coisas sao notadas: primeiro, que a aparicao de Maria esta diretamente ligada a salvacao das almas e a gloria de Deus, especialmente quanto ao apelo por reparacao; entao, que Sua mensagem e transmitida nao apenas em palavras, mas tambem em gestos simbolicos. Assim e que devemos entender a luz que se irradia de Suas maos e entra nos coracoes das criancas depois que Ela lhes diz :"A graca de Deus fortalecera voces". Com estas palavras e este gestos, a Abencoada Virgem quis dizer que a graca de Deus vem por meio dela. Repetira o mesmo gesto em junho. 

Naquela segunda aparicao, ha igualmente duas coisas a serem lembradas: a vontade divina de estabelecer no mundo a "devocao" ao Imaculado Coracao de Maria e a Missao de Lucia, que e trabalhar pelo estabelecimento desta referida "devocao". "Jesus deseja que voces me facam conhecida e amada. Ele deseja estabelecer, no mundo, a devocao ao Meu Imaculado Coracao". Essa vontade divina estara em harmonia com o papel de Maria na doacao da graca, isto e, na divina economia da salvacao. A Missao, aqui dada a Lucia, e a base do valor profetico do que sera comunicado por Ela a Igreja, depois de 1917. 

A aparicao de julho, a terceira, e a grande aparicao profetica. Reafirma o que foi dito nas aparicoes anteriores e transmite as criancas um triplo segredo. As primeiras duas partes deste sigilo ja sao conhecidas: a visao do inferno, que relembra o proposito da Abencoada Virgem de Salvar as almas da eterna perdicao, e a previsao da Segunda Guerra Mundial, em 1939-1945. Este anuncio, no entanto, foi condicional, pois a Guerra podia e devia ter sido evitada, pela oracao e pela penitencia de toda a Igreja, e tambem pela consagracao da Russia ao Imaculado Coracao de Maria. Entre os trabalhos penitenciais e a reparacao exigida, em primeiro lugar esta a Comunhao de Reparacao nos primeiros sabados de cada mes. "Para evitar isso, Eu virei pedir a consagracao da Russia ao Meu Imaculado Coracao e a Comunhao reparadora nos primeiros sabados. Se Meus apelos forem atendidos, a Russia se convertera e havera paz. Se nao, a Russia espalhara seus erros pelo mundo inteiro, provocando guerras e perseguicoes a Igreja. Os bons serao submetidos ao martirio, o Santo Padre sofrera muito, varias nacoes serao aniquiladas. Ao final, Meu Imaculado Coracao triunfara."

Sabemos, hoje, mas nao direcionamos nossas mentes a pensar nisso, suficientemente, que estas profecias vem se realizando, e sao a tragica consequencia da recusa em ouvir os apelos da Abencoada Virgem. Mas, sabemos, outrossim, que estes apelos sao igualmente dirigidos a nos, com a promessa que contem e a certeza da vitoria final. A vitoria, no poder de redencao de Cristo, sera aquela da Imaculada Virgem: Deus querendo que o triunfo apareca como sendo o triunfo de Nossa Mae o Ceu. E aconselhavel notar, na promessa da Abencoada Virgem, feita, a Lucia, vir novamente e fazer Suas solicitacoes, uma afirmacao nova da profetica missao da pequena vidente: e atraves dela que Maria dara a conhecer Seus desejos a Igreja. 

Em relacao a terceira parte, usualmente chamada de "terceiro segredo", nao foi ainda revelada; mas e inteiramente sabido que ela deve ser a parte da logica salvifico-historica das duas etapas antecedentes. E por essa elementacao dialetica da Salvacao do castigo do pecado que a anima. Esta logica e sua dialetica sao interrelacionamentos misteriosos entre a justica a misericordia - misericordia, de maneira alguma, suprime as exigencias da justica, mas as colocava a servico de seu proprio triunfo final. 

A quarta e a quinta aparicoes sao muito mais modestas, em virtude da recusa do homem em acreditar na mensagem da Virgem Abencoada: em agosto, as autoridades civis proibiram as criancas de comparecerem aos encontros, colocando-as na prisao. 

Finalmente, em 13 de outubro, a Abencoada Virgem revelou Seu nome: "Eu sou N. Senhora do Rosario", e realizou o prometido milagre que fora pedido pelas criancas "para que o mundo inteiro pudesse acreditar". Foi o prodigioso fenomeno ocorrido com o sol, que forcou uma multidao e 70 mil pessoas a cair de joelhos, por causa e seu inesgotavel simbolismo. Dele podemos tirar as seguintes ilacoes: 1) o sol e a imagem do poder de Deus, que, arremessando-se sobre a humanidade, pode destrui-la numa fracao de segundo, assim seja ordenada pela justica divina; 2) Porem, este mesmo poder recria o mundo, lavando-o do pecado: esta e a funcao da misericordia; 3) Este poder e a forca de Cristo, o Conquistador, Cristo Vitorioso, acrescido pelo fato de que, uma vez mais, ele e desencadeada por um gesto de N. Senhor, que, abrindo Suas maos posta, tal como se deu no milagre, significa que e apenas pela mediacao de Sua Mae e sua "Associada" que Cristo emprega e espalha pelo mundo os frutos de sua vitoria. Esta mencao e parte inerente da tripla visao reservada as tres criancas. Aquilo que elas viram no sol foi, antes de tudo, uma representacao da Sagrada Familia, com Jose e Jesus menino, logo depois N. Senhora das dores e, por fim, N. Senhora do Monte Carmelo com todo o profetico simbolismo daquela titulacao: ultimatum vitorioso da Misericordia, pela intercessao de Maria Imaculada. Temos ali a evocacao de todo o misterio redentorista de Cristo, como quando e dividido entre as 3 series de "misterios" do Rosario: misterios gozosos, dolorosos e gloriosos. 

Podiamos continuar interminavelmente com a referida exposicao e meditacao sobre estes grandiosos atos profeticos. E oportuno, no entanto, que sumarizemos o essencial num so momento. Mas, antes de assim fazermos, terminemos nosso levantamento historico, relatando os 3 principais eventos do terceiro periodo, para que se o essencial foi realmente dito possa ser desenvolvido e especialmente revelado a Igreja. 

- Apos 1917 - Tempo da manifestacao e realizacao da Mensagem. 

Somos obrigados, aqui, a nos limitarnos a alguns referenciais, definitivos, fixando nossa atencao, especialmente, no conteudo sobrenatural das comunicacoes transmitidas a Irma Lucia e na resposta dada pelo homem aos desejos Divinos. Este terceiro periodo da historia de Fatima, pode, por sua vez, ser dividido em 3 fases distintamente claras: a) fase das grandes revelacoes, feita no prolongamento imediato das promessas da Abencoada Virgem, em julho de 1917; essas promessas foram cumpridas entre 1925 e 1929; b) fase dos esforcos de Irma Lucia no sentido de que a mensagem fosse ouvida, esforcos estes acompanhados e sustentados por freqentes comunicacoes interiorizadas, as quais, segundo as proprias palavras de Lucia, nao tem, todas elas, a mesma valorizacao. Num certo sentido, este periodo ainda esta conosco, mas de um outro ponto de vista, ele alcancou a sua curva de declinio com a consagracao do mundo feita por Pio XII, em 1942; c) de 1942 ate agora, Irma Lucia tem continuado a se esforcar, com a Providencia interferindo diretamente, principalmente com relacao ao evento de 13 de maio de 1981, no intuito de chamar a atencao de "toda a Igreja" para o grande e profetico sinal de Fatima. E certo que Irma Lucia permanece suplicando o cumprimento dos apelos de N. Senhora, mesmo que nem todos, na Igreja, respondam a sua apostrofe. Isso nos leva a dar uma olhada em cada uma desta fases. 

a) As grandes revelacoes depois de 1917

A primeira aconteceu entre 10 de dezembro de 1925 e 15 de fevereiro de 1926, e teve lugar em Pontevedra, na Espanha. Cristo e a Abencoada Virgem apareceram a Irma Lucia e solicitaram a devocao dos primeiros sabados em reparacao: "olhe, filha, para o Meu Coracao, rodeado de espinhos, com que os homens ingratos o ferem a cada momento, atraves de suas blasfemeas e de sua indiferenca. Voce, pelo menos, tente mante-lo consolado, e diga a todos que, no primeiro sabado de 5 meses consecutivos, pratiquem a confissao e comunguem, rezem o rosario e me facam companhia por 15 minutos, meditando nos 15 misterios do Rosario, a fim de que mobilizem a reparacao. Prometo a todos que darei Minha assistencia na hora de suas mortes e todas as gracas necessarias para a salvacao de suas almas." (dezembro, dia 10, 1925) Lucia imediatamente comeca a trabalhar na propagacao desta devocao, uma das condicoes estabelecida para que se evitasse a deflagracao da Segunda Guerra Mundial (13 de julho de 1917). Contudo, apenas quando a guerra ja havia sido declarada foi que, a 13 de setembro, a hierarquia, na pessoa do bispo de Leiria, respondeu ao que se exigia e oficialmente aprovou aquela devocao reparadora. 

A segunda grande revelacao ocorre em Tuy, tambem na Espanha, durante a noite de 12 de junho e a madrugada do dia 13, de 1929. A Abencoada Trindade manifestou-se a Lucia numa grandiosa visao. A Trindade apareceu em sua acao redentora, o Pai e o Espirito Santo dominando a Imagem de Cristo sobre a Cruz, e mostrando como N. Senhor espalha Seu Sangue sobre o mundo pela Eucaristia e atraves da mediacao de Maria (o detalhe, eminentemente teologico, esta na recitacao de Irma Lucia). Nesta ocasiao, a Abencoada Virgem ratifica a promessa feita na Cova da Iria; Ela Vem ordenar a consagracao da Russia e dar as condicoes precisas: "E chegado o momento em que Deus solicita ao Santo Padre que faca, em uniao com todos os bispos do mundo, a consagracao da Russia ao Meu Imaculado Coracao. Ele promete salva-la por este meio". Esta e a terceira condicao a ser preenchida para evitar a guerra; a segunda tinha sido repetida nas revelacoes de 1925-1926, e a primeira consistia no exercicio da oracao e na pratica de sacrificios, por parte de todo o povo Cristao. 

b) Os esforcos de Irma Lucia, de 1929 em diante; novas comunicacoes

Nos anos que se seguiram, ao fim de 1925, Lucia multiplicou esforcos a fim de que os apelos celestiais fossem executados, mas nao obteve sucesso junto as autoridades. Entretanto, a Carta Pastoral de 13 de outubro de 1930, de Mons. Correia da Silva, bispo de Leiria (a diocese a qual Fatima pertence), declarou que as aparicoes na Cova da Iria eram "dignas de credito" e oficialmente autorizado estava "o culto a N. Senhora de Fatima". Esta longa carta certamente marcava uma importante progressao na historia das aparicoes. A 13 de maio do ano seguinte, os bispos portugueses consagraram seu pais ao Imaculado Coracao de Maria (o documento ficou conhecido, desde entao como "A Carta Magna" de Fatima). Em 1936, eles fizeram votos para ir em peregrinacao a Fatima, se a Abencoada Virgem protegesse Portugal da ameaca comunista que pressionava a nacao, vinda diretamente da Espanha. Cumpriram a promessa em 12 e 13 de maio de 1938 e, naquela ocasiao renovaram a Consagracao de 1931. 

Porem, retornando a 1936, temos a dizer que este foi um ano em que Irma Lucia recebeu uma das mais importantes comunicacoes intimas, depois de 1917. Ela da-nos conta disso, nos seguintes termos, numa carta a seu diretor espiritual, datada de 18 de maio. (Seu modo de se expressar permite-nos pensar que a comunicacao tenha ocorrido naquele mes). "Intimamente, tenho falado a Nosso Senhor do assunto: e ha pouco perguntava-Lhe porque nao convertia a Russia sem que Sua Santidade fizesse essa consagracao: 'Porque quero que toda a Minha Igreja reconheca essa consagracao como um triunfo do Coracao Imaculado de Maria, para depois estender o Seu culto e por, ao lado da devocao do Meu Divino Coracao a devocao deste Imaculado Coracao.' Mas Meu Deus, o Santo Padre nao me ha-de crer, se Vos mesmo o nao moveis com uma inspiracao especial'." O que deve ser ressaltado aqui, e que nos parece ser a parte mais incisiva do texto, e o estabelecimento, no mundo da "devocao" ao Imaculado Coracao. Descobrimos deste modo, a vontade manifestada em junho de 1917, e os "planos de misericordia" dos "Coracoes de Cristo e de Maria", anunciados as criancas nas palavras dos anjos que os visitaram, nos idos de 1915 ou 1916. 

Eis ai a razao de por que a Abencoada Virgem de Fatima requer a consagracao da Russia, de forma adequada, e nao a consagracao o mundo. O que acabamos de expor mostra a importancia primaria deste apelo. Deve, todavia, ser esclarecido, porque outros fatos profeticos tem surgido nesse interim, e este desejo dos Ceus, hoje, nao e claramente percebido por todos. 

A Consagracao Do Mundo e a Consagracao da Russia

Foi tambem durante 1936, um ano decisivo, como pudemos observar, que acordos comecaram a ser feitos com a Santa Se, em favor da consagracao do mundo ao Imaculado Coracao de Maria. Este ponto, na historia nao e muito conhecido pelos especialistas de Fatima e dai surgem polemicas que so chegarao a uma resposta, se houver acurado estudo dos acontecimentos. Ate agora, os apelos da Abencoada Virgem, pelo que temos lido, resumem-se apenas a consagracao da Russia. Qual, entao, e a origem da consagracao Colegiada do mundo? A que foi realizada em 1942? Como esta consagracao, relacionada a um plano da Providencia, manifestou-se em Fatima? Revisaremos, aqui, os principais eventos dessa historia, o que, para muitos, sera uma revelacao. E desses eventos recontados tiraremos nossa resposta. 

Vimos acima que, em maio de 1938, os bispos de Portugal foram, juntos a Fatima. Em junho daquele mesmo ano, induzidos pelo Pe. Pinho, S.J., escrevera a Pio XI pedindo-lhe para consagrar o mundo ao Coracao de Maria. Foi a 30 de julho de 1935, que N. Senhor primeiro mostrou-lhe Sua vontade a respeito do assunto, relaciondo-o a consagracao do mundo ao Seu Divino Coracao. Todavia, nada foi feito no prazo de um ano, e somente a 11 de setembro de 1936 Pe. Pinho decidiu escrever a Pio XI e o fez atraves do Secretario de Estado, o Cardeal Pacelli, que serviu de intermediario. Em 1937, o Secretario de Estado, tendo solicitado maiores informacoes da parte de Pe. Pinho, este escreve ao Arcebispo de Braga, que havia feita sindicancias. Elas eram amplamente positivas, e os bispos portugueses reuniram-se em Fatima para uma reparacao, liderados por Pe. Pinho que, de acordo com a Sugestao homologado, enviou carta ao Santo Padre, segundo mencionamos anteriormente. 

Em outubro de 1940, resolveram juntar o testemunho de Irma Lucia ao de Alexandrina, e ordenaram que ela propria escrevesse ao Papa, pedindo-lhe para consagrar o mundo ao Coracao da Abencoada Virgem. Mas Lucia, entao, havia recebida dos Ceus apelos referentes apenas a consagracao da Russia, e nao relativos a consagracao do mundo. Ao receber a ordem de pedir a consagracao do mundo, emitida por seu bispo, entregou-se a oracao, e em 22 de outubro, quando se entregava as preces suplicando por uma luz que lhe dissesse o que fazer, recebeu de N. Senhor, a seguinte resposta: (lembrem-se de que a guerra grassava na Europa) "A tribulacao crescera. Punirei as nacoes por seus crimes de guerra, fome, perseguicao a minha Igreja, perseguicao esta que recai especialmente nele, no Meu Vigario na terra. Sua Santidade encurtara esses dias de agonia, se ele atender aos meus comandos e fizer o ato de consagracao do mundo inteiro, com mencao especial da Russia, ao Imaculado Coracao de Maria."

Assim, por forca desta comunicacao intima, a que Irma Lucia alude, em sua carta a Pio XII(5), ela decide apoiar o movimento do Pe. Pinho. Devemos notar que os termos usados por ela pecam pela falta de precisao e nao tem a seguranca daqueles pronunciados em julho de 1917, em junho de 1929 e em maio de 1936. Nestes, a conversao da Russia e tratada centralmente e dela depende o periodo de paz a ser concedido ao mundo; aqui, situa-se apenas o fim da presente "tribulacao". Por conseguinte, nao sao apenas os meios que divergem e sim a propria finalidade da consagracao em vista. Sabemos que Lucia teve de escrever esta carta duas vezes. Na primeira versao, ela fala da consagracao do mundo como ja tendo sido feito pelo Papa, sozinho; na segunda, ela acrescenta que o bispos de todo o mundo devem juntar-se ao Pontifice para realiza-la. 

Estas consideracoes nao tencionam lancar duvidas sobre a autenticidade da comunicacao sobrenatural de 22 de outubro de 1940, mas simplesmente esclarecer, acima de tudo, que seu conteudo e diferente da mensagem de Fatima a Tuy, e em segundo lugar, mostrar que Irma Lucia estava trabalhando para que essas duas mensagens coincidissem. Isto explica a adicao, na segunda versao de sua carta ao Papa, da participacao dos bispos no ato pontificio. Isso tambem nos torna capazes de entender por que, dentro da comunicacao profetica, em si mesma, e portanto, com o efeito de um encontro de graca com a natureza, ha, lado a lado, com o apelo a consagracao do mundo, uma especial mencao da Russia. E, acima de tudo, isto explica porque, depois do ato realizado por Pio XII, a 31 de outubro de 1942, um ato que veio ao encontra das ordens transmitidas por Irma Lucia, pessoalmente, ela pode dizer e nao se cansa de repetir, desde entao, que aquele ato nao foi ainda a resposta completa ao comando da Abencoada Virgem.(6)

De fato, na comunicacao de outubro de 1942, foi Cristo quem falou e nao N. Senhora. Alem disso ele referiu-se a um "desejo" e nao a Sua vontade, que e inteiramente explanada do ponto de vista de Fatima. Nao temos, pois, motivos para pensar em colocar N. Senhor em oposicao a Sua Mae; devemos entender que estamos em presenca de dois momentos claramente distintos, momentos diversos de um unico e vasto movimento profetico. E tudo comeca em Fatima, e tudo termina la; mas, dentro deste angulo, existe algo que pode ser chamado de parentese divino de Balasar. Entao, em relacao a missao peculiar e essencial confiada a Lucia, a comunicacao de 1940 aparece como um ato de condescendencia da parte de N. Senhor para com o proposito de nao colocar-se em oposicao a Virgem Maria e mesmo a intencao de faze-la concordar com as necessidades do momento, em que a missao de Alexandrina difere da de Lucia; a consagracao do mundo ao Imaculado Coracao de Maria apressa o fim do castigo pelos pecados cometidos pelo mundo, castigo esse que nao foi outro senao a Segunda Guerra Mundial. Porem, uma vez realizado este trabalho de misericordia, a primeira mensagem de Fatima permanece intacta. E mais, os eventos ocorridos apos a guerra, e principalmente a prodigiosa expansao da Russia Sovietica, serviram para mostrar quao urgente era a medida. Os acontecimentos que estamos vivendo, hoje, demonstram, a qualquer um capaz de ler, "os sinais dos tempos", agora mais prementes que nunca. Eis porque Lucia permanece dizendo que os apelos da Abencoada Virgem ainda nao foram atendidos. 

Isso explica o relacionamento estabelecido entre a missao profetica de Balasar e a de Fatima. Por seu ato de 31 de outubro de 1942, o Papa respondeu a Jesus Cristo em comando anterior ao ultimo, ou seja, o apelo da Virgem de Fatima com relacao a consagracao da Russia. E verdade que a carta de Irma Lucia foi de natureza a dar a impressao de que o Santo Padre havia cumprido os dois apelos ao mesmo tempo, pois a Providencia os fez convergir momentaneamente, uma vez que um confirma o outro. Como acabamos de frisar, o que aconteceu depois de 1945 fez com que o Papa compreendesse que a verdade era bem outra, e que, embora tivesse havido uma real convergencia das duas mensagens, em 1940/1942, elas eram substancialmente diferentes naquilo que as especificava. Pio XII respondeu ao apelo ouvido em 1936, como Secretario de Estado de Pio XI, o qual exigia essencialmente a consagracao do mundo e, uma vez cumprido, determinou o fim da guerra. Resta ainda cumprir o segundo, pertinente a consagracao da Russia, do qual ele veio a saber progressivamente e, deste modo, e que acontecera a conversao daquela nacao, com o desaparecimento da ameaca de uma guerra apocaliptica, atraves da qual o ateismo militante e seu dinamismo necessariamente expansionista vem tentando sepultar o mundo, empurrando-o para a mobilizacao de um castigo, por meio da multiplicacao dos pecados. 

c) - A terceira fase - Depois da consagracao de 1942

E foi com isto em mente que, a 7 de julho de 1952, Pio XII consagrou a Russia ao Imaculado Coracao de Maria. Mas, embora N. Senhora tivesse pedido isto, ele nao associou-se, neste ato, aos bispos do mundo inteiro. O ato pontificio permaneceu isolado e, por isso, nao obtive o exigido carater colegial.(7)

Depois de 1952 e antes de marco de 13 de 1982, ou seja, por um espaco de 30 anos, houve praticamente silencio sobre a questao. Este silencio e explicado pela evolucao do mundo e da politica eclesial: e a epoca de "detente". O silencio foi quebrado, provisoriamente, por um ato de Paulo VI, em 1964 e em 1967. Em 21 de novembro de 1964, Paulo VI proclamou Maria a "Mae da Igreja", relembrou a consagracao do mundo ao Imaculado Coracao de Maria, levada a efeito por Pio XII e "a rosa de ouro" ao santuario de N. Senhora de Fatima com as palavras: "Com esta rosa, nos tambem desejamos confiar a familia humana aos cuidados da Mae de Deus". E, a 13 de maio de 1967, desafiando a oposicao de muitos, foi pessoalmente a Fatima renovar este ato. Tal passo, em circunstancias assaz dificeis, realca a importancia que Paulo VI dava a Mensagem de Fatima. 

Depois dele, Joao Paulo II, por sua vez, "confiou toda a Familia humana a protecao maternal da Abencoada Virgem". Fez isso de maneira a evocar os atos de seus predecessores: alusao aquela "que desejam mais" esta protecao e o apelo pela paz ... Mas foi um ato de "affidamento". O Soberano Pontifice realizou este ato em 7 de junho de 1981, durante a Festa de Pentecostes, menos de um mes depois do atentado contra sua vida, sugeriu um novo movimento de aproximacao a Fatima. Renovou o ato em 8 de dezembro do mesmo ano, na Festa da Imaculada Conceicao. 

E verdadeiro que Lucia admite ter pedido ao Papa Pio XII, em 1942, a consagracao do mundo mas ela declara, ao mesmo tempo, que fez isso apenas em obediencia "a instrucao de seu confessor". Don Pasquale publicou o conteudo dessa carta no Osservatore Romano, de 12 de maio de 1982, na vespera da chegada de Joao Paulo II, que estava em peregrinacao a Fatima. Seu Testemunho e de plena validade, pois quando foi diretor espiritual de Alexandrina Maria da Costa, mantinha continuos e proximos contados, depois de 1939, com Irma Lucia em Fatima.(8)

Alem do mais, nossa analise da consagracao feita pelo Santo Padre, a 13 de maio, mostrou-nos, nao apenas que a situacao, do ponto de vista em que o problema e abordado, nao mudara com aquele ato, mas tambem os historiadores que ajudaram o Santo Padre a prepara-lo nao tinha percebido a relacao de convergencia e divergencia entre os pedidos feitos em Balasar e os transmitidos em Fatima. Desculparam-se dizendo das dificuldades em ter acesso a necessaria documentacao. E mais do que tempo para que essas questoes sejam trazidas a opiniao publica e que as testemunhas chefes ou os detentores dos documentos possam, caso queiram, abri-los ao povo e, antes disso, abri-los a hierarquia, como mostra de seu trabalho. O que tem sido publicado, ate agora, entretanto, e suficiente para estabelecer as conclusoes a que chegou. Havera novidades para muitos, praticamente para todos aqueles que ainda nao conhecem o profetico carisma de Balasar. Uma vez conhecidos os fatos, serao todos compelidos a conclusao confirmada por dois dos maiores especialistas qualificados no assunto: Frei J.M. Alonso e Dom Pasquale. 

Ai reside a tarefa de relatar, historicamente, a direcao destes diferentes apelos, especialmente os de Fatima, que tem sido transmitido a Igreja e a maneira em, como a Igreja tem respondido. Esta abordagem precisaria de um estudo especial, em separado. Inevitavelmente, os resultados seriam parciais; nao ha, pois, necessidade de uma inquiricao particular, para estabelecer, de modo geral, que Fatima e ignorada, digamos, rejeitada e que foi preciso haver atos como os de Paulo VI e Joao Paulo II para resgatar seu nome do anonimato. 

2 - A MENSAGEM DE FATIMA - CONTEUDO E SINTESE

Temos revisado, aqui, os principais fatos, atraves dos quais esta mensagem foi passada a sua comissionada, para que ela a transmitisse a Igreja. Agora, devemos sumarizar seu conteudo. Isto pode ser feito em se construindo uma sintese em terno dos 4 pontos que explanaremos a seguir: ela contem um aviso e um apelo, uma verdade fundamental e uma promessa final.(9)

No inicio, no meio e ao final, a grande luz que ilumina toda esta profecia e aquela que brota do Imaculado Coracao de Maria, instrumento da divina Misericordia. 

O apelo aparece em primeiro plano (nas palavras do Anjo e da Abencoada Virgem), mas e inspirada pela situacao que se constitiu no objeto do aviso, pois e na advertencia que se baseia o ponto de origem de toda a mensagem, e isto pode ser resumido em 2 palavras: pecado e guerra. O pecado esta se multiplicando no mundo e e por isso que a guerra se espalha (1915-1917). Se os homens nao se convertessem a guerra continuaria ou comecaria novamente (13 de julho de 1917). Portanto, o pecado e o objeto central do aviso, o pecado em todas as suas formas, mas especialmente quando se caracteriza pela rejeicao do proprio Deus (o ateismo militante da Russia) e quando insulta a Eucaristia (a oracao ensinada pelo Anjo em sua ultima aparicao), e quando ofende a Deus no Imaculado Coracao de Maria (oracoes e Comunhoes em reparacao por estes pecados). 

Por isto, o apelo clama pela conversao, oracao e sacrificio de reparacao e co-redencao. A mensagem de Fatima e, antes de tudo, este apelo por oracao e sacrificio (comecando com as duas aparicoes formaisdo Anjo). Ela tambem pede - como oferta - Comunhao reparadora nos primeiros sabados, em reparacao aos pecados cometidos contra o Imaculado Coracao de Maria ( 13 de julho de 1917; 10 de dezembro 1925). Finalmente, ela ordena a consagracao da Russia, num ato colegiado, realizado pelo Papa e por todos os bispos a ele unidos (13 de julho de 1929). Veremos, na terceira parte, a complementacao eclesial e a profundidade teologica destes 2 comandos fundamentais. 

O aviso e o apelo sao extremamente graves como pode ser entrevisto nas ultimas palavras de N. Senhora: "O Homem deve parar com suas ofensas Deus, N. Senhor, pois Ele ja foi por demais ofendidos".(10)

A Mensagem de Fatima termina com uma citacao que a torna, basicamente, uma mensagem de esperanca e agradecemos a N. Senhora esta promessa incondicional: "Por fim o Meu Imaculado Coracao triunfara". (13 de julho de 1917; maio de 1936). 

Esta assertiva liga-se aos dois aspectos ja examinados e ai e que nos apresenta a verdade central de todo este profetico misterio: o Imaculado Coracao e Seu papel decisivo no trabalho de salvacao. Tendo a Abencoada Virgem um so proposito, quando decidiu vir ate nos - salvar as almas e glorificar a Deus, em enviar Sua Mae para manifestar esta vontade a todos nos, possuindo, ao mesmo tempo uma outra meta: a glorificacao de N. Senhora no mundo, a quem o proprio Deus esta associado, no sentido de realizar o trabalho de nossa salvacao. Este e o significado pleno da "reparacao pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coracao de Maria"; e igualmente o significado da consagracao da Russia a este mesmo Coracao; e, finalmente, o significado de atribuir a Ela a vitoria final: "Meu Imaculado Coracao triunfara". 

O plano divino, aqui revelado, e aquele manifestado nas palavras ditas a 13 de junho de 1917 (confirmados pelas de maio de 1936): Jesus "quer estabelecer no mundo, a devocao ao Meu Imaculado Coracao", palavras que perdem algo de seu significado, a menos que o termo "devocao" seja entendido como parte integrante da virtude de religiao. 

A esta verdade, que e a fundacao primeira de toda a Mensagem, e de seu extensionamento, acresca-se a verdade da comunhao dos santos pois embora a Abencoada Virgem seja a primeira a cooperar com o divino e humano trabalho de Salvacao, Ela nao esta sozinha neste empreendimento. Todos os "santos" sao chamados a segunda-la nisto (cf. Col. 1,24). Esta e a razao de termos especialmente recordado o peso das palavras de 19 de agosto de 1917: "... vao muitas almas para o inferno por nao haver quem se sacrifique e peca por elas."

Disto nao consideramos apenas a urgencia, mas tambem a intensidade da coerencia doutrinaria da profetica mensagem da Cova da Iria. Examinaremos, com brevidade, alguns de seus aspectos de notoria importancia. Mas, para isto, foi necessario, em primeiro lugar, apresenta-la como um todo, em sua historia, deste a primeira revelacao, aquela feita a testemunhas encarregadas de transmiti-la a Igreja. No cerne desta apresentacao, o que e mais contundente e que nos parecem de vital importancia e sublinhar o carater total, global e final desta mensagem. Total porque esta enderecada a toda a Igreja, Pastores e fieis; global no sentido de que todo o Misterio da Cristandade esta contido nela; e afinal porque, neste Misterio, que e essencialmente teandrico (uniao do divino e do humano em Cristo), como diria Soloviev, e que e trazido a luz atraves do elemento humano, pelo qual se torna sensivel: o Coracao da Imaculada. Desta fora, um outro aspecto torna-se final, nesta mensagem: o que o primeiro elemento criado e pelo qual a Encarnacao Redentora foi realizada e, ao mesmo tempo, a ultima chance oferecida a humanidade, para sua salvacao. 

Mas, antes de mais nada, e no aspecto da totalidade que insistiremos, pois o ato considerado ponto de partida deste estudo sera tambem o objeto principal de sua ultima parte, o ato de consagracao, extremamente importante, por estarmos certos de que ele e um dos elementos constitutivos do apelo de Fatima. Os outros dois sao: a conversao, composta da oracao e da participacao no sacrificio redentor de Cristo, e a "devocao reparadora" essencialmente Eucaristica e Mariana - dos 5 primeiros sabados de cada mes. Mais tarde, veremos como estes tres comandos se relacionam, mas deste ja podemos ver que nenhum deles se basta, isoladamente, nem pode dispensar os outros dois e, por outro lado, que um esta enderecado a hierarquia, somente, enquanto os outros dizem respeito a todos que foram, batizados, sem distincao. Portanto, e claro, deste o inicio, que precisamos do esforco de toda a Igreja para atraves desta mensagem, oferecer a salvacao ao mundo. Eis ai um dos mais seguros sinais de sua autenticidade, e tambem um dos criterios de maior importancia para sua correta interpretacao. Em particular, constatamos que estas consideracoes nao permitem que esperemos da consagracao, sozinha, a solucao cabal para todos os problemas da humanidade, como alguns devotos de Fatima sao tentados a pensar ou deixar tudo por conta das oracoes e penitencias dos fieis, o que pode muito bem ser a tentacao da hierarquia. Ambos os esforcos, conjugados, sao necessariarios e ambos mediados pelo Imaculado Coracao de Maria. Devemos tentar provar por que. 

III - A VIRGEM MARIA NA DIVINA ECONOMIA DA SALVACAO

AQUELAS classificacoes de ordem historica, que dissemos ser necessarias, ja foram feitas; trataremos, agora, das perspectivas teologicas nas quais o profetico plano de salvacao nos foi revelado. Elas tem seu lugar e sua justificacao. Examinaremos 4 questoes: 1) O lugar da profecia no tempo atual da economia de salvacao; 2) A conexao entre justica e misericordia no trabalho da Redencao, o qual e baseado no acoplamento entre a conversao Crista, a Comunhao reparadora e a consagracao a Maria; 3) A natureza e o suporte salvifico da consagracao; 4) O papel da Abencoada Virgem no trabalho de Salvacao. Estas 4 questoes estao intimamente ligados, especialmente as 3 primeiras e culminam com a quarta, que, como vemos, e a chave do misterio de Fatima. 

1 - PROFECIA E HIERARQUIA

E fato, como vimos: Leao XXIII, Pio XII, Paulo VI e Joao Paulo II, para citar apenas estes, realizaram atos de amplitude eclesial universal, em direcoes colocadas a eles por uma rota profetica. Como podemos justificar essa atitude? Por uma teologia da profecia, que mostra seu lugar na economia da Nova Alianca, melhor dizendo, no governo da Igreja pela hierarquia. Isto, deve ser confessado: e ainda uma questao insuficientemente elucidada. Em geral, nos contentamos com uma distorcao entra a "Revelacao Publica", a do Evangelho, e muitas "revelacoes privadas", amontoadas na segunda categoria, todas elas comunicacoes sobrenaturais feitas a "misticos". E usualmente, acrescentamos que a primeira e uma obrigacao, e a segunda, o maximo e permitido dizer, e que elas sao aceitas e consideradas verdadeiras, somente atraves de um prisma puramente adido a fe humana. 

Duas consideracoes muito simples e que, entre as comunicacoes sobrenaturais ocorridos no presente, devemos distinguir aquelas cujo objeto imediato e o bem e o gerenciamento das almas, daquelas feitas a alguem para que sejam repassadas a Igreja. Este e o caso de Fatima, de Lourdes e de todas as grandes aparicoes de Maria nos tempos modernos. A segunda reflexao e que se e verdadeiro que a natureza do ato de fe e determinado pelo motivo no qual repousa, devemos concluir que uma fe humana baseia-se no testemunho humano e que, inversamente, onde aparece um testemunho sobrenatural de origem divina, o ato de fe requerido tambem ficara marcado pelo carater sobrenatural. Nao sera uma fe teologica, que, por definicao, possa ser desencadeada e fundamentada apenas por uma Revelacao evangelica, proposta pela Igreja. Mas tambem nao sera tampouco uma fe puramente humana, deixada a livre escolha de cada um. Para colocar o problema em termos simplificados diremos que, a partir do momento que se estabelece que Deus esta falando conosco, pessoalmente ou atraves de um mensageiro, Sua palavra justifica um ato de fe que, de uma certa maneira, sera de ordem sobrenatural. Sua palavra e a base dele e o direciona: ha, portanto, obrigacao de nele crer e, por conseguinte, obedecer. 

Por varios anos, um certo numero de teologos tem se sentido obrigados a se mover nesta direcao, a qual certamente e licita, Nao havendo nenhum texto do Magisterium que a proiba. Deste modo, O Bispo, Mons. R. Graber denuncia o "amendrontado minimalismo" que permite a todo mundo acreditar ou nao na palavra de Deus, assim tenha ela sido revelada por via profetica. Similarmente, Fr. Balic, embora tenha ido longe demais quando considera as aparicoes da Abencoada Virgem como materia de fe teologica, entre outras aparicoes posteriores a elas. Talvez pudessemos falar de uma "fe profetica", vendo-a como subordinada ou subsidiaria da fe teologica. 

A questao, aqui, e de profecia. Agora, a funcao apropriada a profecia, na Antiga alianca como tambem na Nova, e converter, mudar aqueles a quem ela e destinada - rei, padre, povo de Deus - para que preencham as ordens daquela Alianca. Isto nao faz com que tombem o lugar da Alianca, mesmo quando encobrem implicacoes ate entao escondidas: sao baseados na Alianca e estao a seu servico. Por outro lado, podia ser que o profeta tivesse de suprir as fraquezas do padre. Mas ele, na Nova Alianca, permanece de posse da autoridade apostolica e e, oficialmente, a pessoa encarregada de representar a Alianca. Ai esta, porque o motivo basico para sua decisao de agir e sempre a palavra da alianca, aquela do Evangelho - como temos observado o caso dos papas que temos citado. Mas, o motivo imediato que leva o pastor prontamente a agir e assim voltar aquele motivo fundamental, pode ser a mensagem profetica a ela enderecada. Os dois motivos fundem-se um no outro, corroboram-se, na mente da hierarquia no que tange a sua decisao. 

Esta economia e valida para a velha, e e para a nova alianca, e este foi declarado, em palavras fortes, por Sao Paulo. Revisaremos apenas dois seguintes: "A Igreja foi construida sobre a fundacao dos apostolos e dos profetas" (Ef. 2, 30), significando, aqui, os profetas do Novo Testamento, como e mostrado sem a menor sombra de duvida. E esta outra afirmacao: "Nao se extingue o espirito. Nao desprezem as profecias. Segurem firme o que e bom" (Tess. 5, 19 - 20). "Segurem rapido". Sao Paulo esta dando uma ordem. 

Eis porque Sao Tomas de Aquino, pessoalmente, chega ao ponto de declarar: "A profecia e necessaria para o governo dos povos e (ele acrescenta, de maneira enfatica) principalmente no que concerne a adoracao divina, para qual a natureza nao esta adequada: a graca e necessaria". Seguindo Santo Agostinho, ele tambem afirma que "nunca houve falta de homens que possuissem o espirito da profecia, nao com o proposito de criar nova doutrina de fe, mas com o intuito de orientar o homem em suas acoes", "pois ate agora isto foi necessario para a salvacao do eleito". Esta necessidade nao significaria nada que nao se incluisse nela a obrigacao de acreditar na profecia. 

O repetido convite do Concilio Vaticano II, para que respeitemos os carismas, deve abrir nossas mentes, hoje, para a teologia do carisma profetico e sua funcao essencial na divina economia do governo da Igreja. Entao, quando os Papas consagram o mundo ao Coracao de Cristo ou ao Coracao de Maria, em virtude de um pedido feito a elas por via profetica, sua acao combina perfeitamente com as solicitacoes da Nova Alianca - o discernimento do carisma a eles apresentado, tendo sido este facilmente exercido - e o passo que eles dao nao e apenas uma acao legitima; e a resposta a um dever de ordem sobrenatural e de carater obrigatorio. 

Assim sendo, podemos agora olhar para aqueles aspectos da Revelacao Evangelica, trazidos de volta para o noticiario da Igreja atraves da revelacao de Fatima. 

2 - FATIMA E O EVANGELHO: JUSTICA E MISERICORDIA

Dois termos resumem o misterio da Redencao, como e lembrado a Igreja atraves da Abencoada Virgem: justica e misericordia. Mas eles, por sua vez, pressupoem dois outros: pecado e santidade. O proposito da Alianca e a comunicacao de Deus com os homens: "Eu serei o Deus deles e eles serao o Meu povo". (Jer. 31 33). Mas a condicao para que esta comunicacao se realize, e que o povo" (Ex. 19, 5); em outras palavras, o povo deve ser Santo como Deus e santo e porque o e: "sejam santos, porque Eu o Senhor Deus de voces, Sou santo". "Voces serao santos em mim , porque Eu o Senhor, Sou santo" (Lev. 19, 2; 20, 26). Desta maneira, santidade e pecado aparecem como os dois termos antonimos dos quais depende a realizacao ou nao realizacao do ultimato proposto pela Alianca. Abencoados por Deus e admitidos a comunhao com Ele, sendo Ele santo, as pessoas escolhidas, se fizerem o contrario, serao castigados por Ele e reprovadas caso se apartem de seu Deus pelo pecado. Bencao e maldicao sao as unicas duas conclusoes possiveis no pacto da Alianca (Dent. 28,1,14,46); isto e exigido pela santidade e pela Justica de Deus. 

Longe de serem abolidos, estes requisitos sao, pelo contrario, extensionados ao maximo, pela Nova Alianca: "Sejam perfeitos, como o Pai celestial de voces o e" (Mt.5, 48). "Mas, de acordo com Ele que os tem chamado e que e santo, sejam voces tambem, de toda maneira, santos." (1 Ped. 1, 16 ). E o pecado sempre atrai, aqueles que o cometem,"a ira de Deus", arrastando-os, se nao se converterem, a eterna maldicao: "afastem-se de mim, o malditos" (Mt. 25, 41). Asseguradamente, esta e "A Lei", embora ela propria seja santa, a qual "produz ira" (Rom. 4, 15, cf; 7, 12-13) e isto equivale a dizer, o castigo ordenado pela justica em funcao do pecado. E "Jesus (...) nos livra da ira que esta por vir" (1 Tess. 1,10). Porem, o homem e livre e, mesmo pecando, a despeito da graca de Cristo, "ergue-se novamente" e levanta o que "destruiu", atraves da Justica e da santidade, significando dizer "A Lei" (Gal.2, 18) e nesta lei esta o castigo e a ira de Deus. 

Por isso, e um engano radical supor que o tema da ira de Deus pertence unicamente a Velha Alianca. Proceder assim seria negar ao mesmo tempo a liberdade humana e a justica divina. E verdadeiro que a Misericordia foi ativada na redencao operada por Cristo, "O Amado Filho" do Pai (Mt. 3, 17) que imolou-se como resgate por nossos pecados (Is. 53, 5-12) ao ponto de "ser execrado por nos " (Gal. 3. 13). Eis porque, dai por diante, "nao havera nenhuma condenacao para aqueles que estao em Cristo" (Rom. 8,1). E, estamos "em Cristo" pela fe pela esperanca e pela caridade. Mas, para os que nao estao mais "em Cristo", para os que pecam, a maldicao e o castigo sao o seu destino, a sorte que os aguarda. Para eles, existe "a ira que esta por vir" (Mt. 3,7; Apoc. 14, 8 ff). O fato e que ha uma falsa ideia da Divina Misericordia e e grave injustica da parte do homem silenciar essas verdades. E a propria Virgem Abencoada quem nos lembra disto, com Seus avisos e a visao do inferno. Ela assim age cumprindo uma obrigacao de Seu amor maternal. De maneira alguma, o medo servil do castigo pode ser visto como "perfeita caridade" (1 Jo. 4, 18). Contudo, pode levar ao inicio da conversao e da salvacao, como lembra o Concilio de Trento em resposta aos erros de Lutero. 

Estabelecidas estas respostas, a luz do apelo de Fatima aparece em todo o seu poder e em toda a sua realidade evangelica. Ouvimos as utimas palavras de N. Senhora, reportadas por Lucia: "Nao ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que ja esta muito ofendido." Palavras pesadas de ameaca cujo conteudo foi revelado a 13 de julho: em nosso seculo, guerra, fome, perseguicoes a Igreja, que e tambem passivel de reprovacao, e no proximo mundo "o fogo que se apaga", (Mt. 25, 41), para aqueles que atrairam o castigo requerido pela jutica. Estritamente falando, nao e tanto a ameaca, mas o lembrete da ameaca, que e inerente a injustica. Amor e misericordia sao os unicos motivos desta advertencia, feita somente para salvar a humanidade, um recado acompanhado, como temos visto, por um triplo apelo a conversao (oracao e sacrificio) a Comunhao reparadora, a consagracao da Russia. Se eles forem atendidos os homens atrairao para si as gracas do perdao e da misericordia, adqueridas pela redencao de Cristo. Se eles se recusarem responder ou fizerem isto demasiado tarde, estarao a descoberta para receber o que a justica lhes cobrara: as punicoes cairao sobre eles para purifica-lo do pecado. A alternativa oferecida esta la, em sua plenitude. Lucia expressou-a admiravelmente, em suas cartas: "Se este ato, (a consagracao da Russia) pelo qual a paz sera concebida a nos, nao foi feito, a guerra terminara quando o sangue derramado pelos martires for suficiente para aplacar a Justica divina". Devemos notar, alem disso, que mesmo no caso de que nada sera feito sem misericordia, pois ela esta em uniao com o sacrificio de Cristo. Vossa unica salvacao sera de que o sacrificio dos martires seja suficiente para satisfazer a Justica Divina, pois que, na escolha entre justica e misericordia, o perdao sempre se encontra presente. 

Lucia tambem esta inteiramente convicta dos 3 caminhos, a nos oferecidos como recursos a Misericordia, nos quais descobrimos a misteriosa economia daqueles dois atributos: oracao e sacrificio, comunhao reparadora e a consagracao a Maria. A 18 de agosto de 1940, ela escreveu a Fr. Goncalves: "Nas presentes condicoes do mundo, o que Deus deseja sao almas, as quais, unidas a Ele, sacrifiquem-se e rezem (...). Agora, mais que nunca, ha necessidade de almas que se doem a Ele sem reserva. E quao elas sao!" Este e o primeiro caminho, onde reina a justica. Ha precisao deficil para a humanidade. Por isso, ha precisao de se recorrer aos outros dois. Sem duvida alguma, Lucia continua, Deus podia, "por um milagre" fazer com que os homens voltassem a ser o que eram, no inicio. "Mas Ele prefere, como naquele tempo, punir o mundo, de acordo com sua justica, por tantos e tantos crimes, e preparar um retorno mais completo desses homens a Ele mesmo." Vista tal decisao, no plano de misericordia esta a solucao para o nosso tempo, para que reune a justica e com os direitos que a constituem. "E como e chegada a hora da Justica de Deus sobre o mundo, devemos continuar a rezar", isto e, a oferecer a Deus uma "oracao acompanhada pelo sacrifico, acima de tudo, o sacrificio necessario, que e o de evitarmos o pecado."

Mas os pecados do mundo sao tantos que esta rota pode nao bastar; e a misericordia que Deus sente por nos e tao grande, que Ele nao consegue suportar ver a nos todos tragados pela desgraca, indefinitivamente. Por isso nos oferece os dois caminhos que foram revelados pela Abencoada Virgem, em 13 de julho de 1917, voltando Ela para renovar a oferta e pedir que aceitassemos, em 1925 e em 1929. Iluminada de forma sobrenatural, Lucia tem sido sempre positiva neste ponto. A comunhao reparadora, sozinha, pode alcancar muita coisa, mas obtera, no maximo, um indulto, o qual sera devido principalmente a divina misericordia, sendo adquerido, principalmente, pelos meritos do Sacrificio Eucaristico, assim salvando o mundo de muito sofrimento. Mas, "graca e misterio" nao doados em sua plenitude, ao mundo, e nao obtidos somente com a conversao da Russia. Sera um completo retorno de todos a Deus, e so entao a paz prometida atraves de necessaria consagracao ao Imaculado Coracao de Maria se prolongara pelos tempos vindouros. 

Todos estes textos, admiravelmente, expressam a divina economia da justica e da misericordia atuante por sobre todo o universo. Ela pode ser remida nos seguintes parametros: na primeira etapa, praticamente todo o esforco partira dos homens, e a imensidade deste empreendimento e tao grande quanto os pecados cometidos no mundo. Mesmo neste caso, como temos frisado, nada sera alcancado sem Perdao, pois e somente em virtude do sacrificio de Cristo que ele se estende aos sacrificios com que os homens podem contribuir, no sentido de atender os ditames da Justica Divina. Neste caminho, as exigencias predominam e isto cobra da pessoa humana um grau maximo de sacrificios reparadores. Nas outras duas rotas, inversamente, o homem apela diretamente para a Divina Misericordia e, por meio deste recurso, consegue minimizar o castigo que ameaca, pois, recorrendo a fe na redencao de Cristo, atrai para si os frutos do perdao e da reconciliacao. 

Eis porque, como dissemos, e na segunda parte que a profetica mensagem de Fatima coloca em atividade todo o misterio cristao da salvacao, misterio de justica e de misericordia, que exige uma resposta de toda a Igreja. A misericordia e a grande luz que o ilumina; todavia, esta luz so e derramada sobre aqueles cujos coracoes estao abertos a ela e ao mesmo tempo ao clarao da justica. Ai esta a grande licao que nos veio da Abencoada Virgem. Os padres nao podem fazer ao rebanho um sermao que afirme as ovelhas que as oracoes e os sacrificios por elas praticados sao suficientes a salvacao, pois isto seria uma inverdade. Tampouco os fieis podem dizer aos padres: seu ato de consagracao resolvera tudo. A oracao e o sacrificio, de todos, sao necessarios para preparar aquele "completo retorno" dos homens a Deus. 

A mesma coisa acontece em relacao a Comunhao reparadora, pois ela, juntamente com a consagracao, obtera a prodigiosa efusao da divina misericordia, da qual o mundo tanto precisa e que pode ser comparada ao caminho das indulgencias. Estes procedimentos funcionam como condicoes a serem cumpridas, caso se queira alcancar uma indulgencia em termos universais; condicoes estas que foram transmitidas ao mundo atraves da rota profetica, mas que necessitam ser ratificadas pela autoridade apostolica, para produzir seu efeito. E facil entender o espirito da devocao dos primeiros. Sabados, sendo a Comunhao Eucaristica um dos meios classicos entre as indulgencias indicadas pela Igreja para a remissao da penalidade provocada pelo pecado. A teologia da consagracao nos dira como e o derradeiro meio de salvacao, oferecido ao mundo pela divina misericordia. 

3 - CONSAGRACAO RENOVACAO DA ALIANCA

Que vem a ser consagracao? A tradicao espiritual dos tempos modernos e o magisterium da Igreja, de Leao XIII a Joao Paulo II, tem-na muitas vezes explicado. Para atingir sua essencialidade, devemos nos ater a alianca. E, de fato, pela alianca, que Deus consagra seu povo e que o povo se consagra a Deus, num processo de reciprocidade. "Se chegarem a ouvir minha voz e guardarem minha alianca, serao, para mim, um reino sacerdotal e uma nacao santificada". Isto foi dito por Deus aos Hebreus, no momento em que, pela mediacao de Moises, ele selou o pacto de alianca da lei (Ex. 19, 5-6). E Cristo, quando estava para ser imolado no sacrificio da Nova Alianca; declarou, na presenca de seus discipulos (aqui segue o texto transcrito pronunciado pelo Santo Padre em seu ato de 13 de maio de 1952): "Por eles Eu santifico a Mim mesmo, para que possam ser santificados na verdade", (Jo. 17, 19). 

As palavras hebraicas e gregas, QDSh e agios significam, a um so tempo, sagrado, santificado, consagrado. Agiaos (Jn. 17, 19) pode querer dizer consagrar, mas tambem significa santificar. Isto nos da a realidade central da consagracao, fruto da alianca que Deus fez conosco e ela nos torna uma possessao de Deus, que assim divide sua santidade com todas as criaturas humanas. No caso de Deus, e evidente que ele esta cuidando de nos, aceitando-nos e comunicando-nos na sua santidade; no caso do homem, este e um presente recebido do proprio Deus, incluindo o compromisso de servi-lo, no cumprimento das ordens que levam a santidade. Por nao haver comunicado este presente divino em sua totalidade, a velha alianca nao aderiu espaco para que o homem saldasse seu compromisso para com Deus. Por dotar os homens de santidade, santificando o espirito, a nova alianca faz com que eles, efetivamente, sejam capazes de exercer esta fidelidade. Com isto, a consagracao atinge sua plenitude. 

Tudo comeca, como pode ser observado, com a Alianca e seu sacrificio consagrador e santificante. Mas, embora o trabalho de redencao tenha sido feito "de uma vez por todas" e apesar de seu acrificio nao dever, por razao, ser renovado (Heb. 7, 27; 9, 25-28), produz seu efeito na Igreja e por ela, no entanto, de forma progressiva. Dai advem a necessidade de perpetuar e reativar, incessantemente, na Igreja, o Sacrificio unico de Cristo, tendo a consagracao como primeira fonte de santificacao do mundo. O Sacramento da Eucaristia foi instituido com este fim e esta inteiramente apto a consecucao de seu momento central, acompanhado das palavras que, institucionalmente, sao recitadas. E o que chamamos consagracao. As palavras de Jo. 17,19 justificam plenamente a expressao e preservam seu verdadeiro significado. Eis estao a primeira consagracao, aquela que a Igreja realiza a cada dia e cuja repeticao continua encoraja. Sua natureza e sacramental e nada pode igualar-se a seu valor, pois nela "o trabalho de nossa redencao e efetuado". Pela graca de sua completude, devemos distinguir, em seu ambito, as duas consagracoes fundamentais de Cristo: A sua humanidade, que tem lugar na Encarnacao, (Jo. 10, 36) e a outra, na qual ele se imola, em acrificio (Jo. 17, 19). A primeira e prolongada e realizada na Cristandade pelo Sacramento do Batismo e a segunda se concretiza pela Eucaristia. 

Todavia, assim como nenhuma das duas consagracoes pode prescindir da mediacao de Cristo (1. Tim. 2, 5) outras mediacoes nao sao excluidas, dependentes e subordinadas, mas presentes e atuantes. E assim como a consagracao sacramental do batismo nao torna a consagracao religiosa superflua e sim encontra nela sua realizacao em maior grau de perfeicao, a consagracao da humanidade e do mundo, realizada em cada celebracao eucaristica, nao exclui a possibilidade de outras consagracoes. E, estas, como a consagracao Eucaristica, mantem relacao com a consagracao realizada atraves do sacrificio de Cristo na Cruz e nisto reside o seu significado e o seu valor intrinseco. Em contraste com as consagracoes sacramentam e por analogia, as consagracoes religiosas bem poderiam ser chamadas de "consagracoes de devocao", uma vez que esta palavra guarda toda a sua forca original. Religiao e a soma dos atos por meio dos quais rendemos louvor a Deus, adoracao ou "servico" e ainda o amor que lhe devemos; a devocao e a alma disso tudo, consistindo numa firme e resoluta vontade de entregar a si mesma, pronta e totalmente, em obediencia ao que e exigido e ordenado pela adoracao e pelo "servico" de Deus. E e dentro deste profundo sentido que falamos de devocao; isto nao exclui o segundo significado da palavra, em que devocao e uma pratica devota particular. Em lugar de negar o sentido da premissa maior, esta definicao mais comum ajuda no entendimento do primeiro conceito. O primeiro significado e aquele em que se aplica a vontade divina de "estabelecer no mundo a devocao ao Imaculado Coracao de Maria". Ja quanto ao segundo significado, aplica-se a pratica da comunhao Reparadora dos primeiros sabados. 

Ele se aplica, tambem, embora de uma outra maneira, a pratica particular que e a consagracao da Russia a Abencoada Virgem. Vendo-a na perspectiva da alianca e da redencao, entendemos porque Deus a exige como instrumento que servira a disseminacao de Sua misericordia sobre o mundo e, no caminho que da Igreja poe esta ou aquela condicao, em carater especial, para garantir as indulgencias. Dando este passo, que os pastores tem obrigacao de efetivar, e eles reafirmarao que o rebanho que lhe foi confiado pertence a Deus, a Cristo e a Maria, abrindo, desta maneira, espaco para a acao redentora da misericordia, ligando-a e fazendo com que ela presida os caminhos da "religiao" e da santificacao. Consagrar a humanidade ou um povo, em perticular, a Deus, e confia-los a ela Tambem e realizar algo mais E assumir o compromisso de, ao mesmo tempo, santificar esta humanidade e inicia-la de vez na estrada da conversao e da santificacao. 

Nesta base, podemos igualmente responder as objecoes feitas a consagracao do mundo ao Imaculado Coracao, e tambem retrucar a objecao primeira contra a ideia da consagracao. Aqui e ali ainda se diz que a consagracao nao faz o menor sentido, uma vez que o mundo inteiro ja esta consagrado a Deus e a ele pertence, pela criacao e pela redencao. Para outros, inversamente, tal consagracao e contraria ao Evangelho. Pode ate mesmo ser perigosa, pois distancia os cristao de seu comprometimento com a construcao do mundo. Nao e dificil responder a estes sofismas, pois, por um lado, e verdade que o mundo inteiro pertence a Deus e este fato o prove de um certo carater sagrado; mas, nao e menos verdadeiro afirmar que Deus pode escolher pessoas particulares ou realidades, com o fim de te-las e santifica-las, de uma maneira especial. Nisto esta todo o misterio da eleicao, que se constitui a base da alianca, da consagracao que nela e efetuada, e a base, tambem, da salvacao (Ex. 19, 5; Deut. 7, 6; etc. Lucas 9, 35). Alem disso, a criacao inteira foi confiada ao Homem (Gen. 1,28) e foi deteriorada pelo seu pecado dentro da corrupcao (Rom. 8,20). Deve, todavia, ser salva juntamente com o homem (V. 19). E verdade que, na situacao em que se encontra o reinado de Deus, o homem esta dividido entre seu glorioso estado escatologico, pela direcao tomada por ele ao ser consagrado pelo batismo, e por toda a sua vida religiosa como cristao, e, por outro lado, pelo esforco que ele tem feito para expandir a construcao da cidade terrestre, em conformidade com a santidade do Reino. A Igreja o impele para a gloria; o mundo o traz de volta as suas necessidades. E apenas na Parousia que os dois se unirao, Igreja e mundo sendo elevados ao estado de perfeicao do Reino dos Ceus. 

Porem, quando sabemos que o mundo tambem redimiu-se e, por este fato, e chamado a gloria, vemos, no mesmo instante, que a consagracao dos cristaos na Igreja, longe de apartar os homens de seu proprio mundo, obriga-os a nao apenas se sacrificarem neste mundo, mas igualmente a santificarem este mundo onde vivem. A santificacao do mundo e, de fato, um dos componentes essenciais do esforco feito pelos cristao para santificarem a si mesmos. Mas, toda santificacao se ergue de uma consagracao inicial. Consagrado pela gloria da redencao de Cristo, o mundo deve ser consagrado tambem pela atividade da Igreja e dos cristaos. E por esta razao que, de inicio, estes atos solenes de consagracao sao todos legitimados. Sao ate mesmo necessarios, no que concerne a consagracao diaria do mundo, feita na oferta do sacrificio eucaristico. As consagracoes sao altamente desejaveis e podem, em certas epocas, ser necessarias, como "consagracoes de devocao". Tais atos levam ao mundo a energia santificante do Espirito e fertilizam a atividade que os homens expandem e trazem de volta, na sua oferta a Deus. O pecado deste seculo e a tentativa de afastar o mundo de Deus. Podemos ver, entao, por que estas consagracoes sao todas da maior necessidade, mormente em nossos dias, e, conseguentemente, Deus pode requere-las, apresentando-as de modo profetico, como necessarias a doacao de sua misericordia. Finalmente, podemos constatar por que as pessoas que sao instrumentos mais ativos sao, ao mesmo tempo, aquelas que mais sofrem, com o processo de ateizacao e, por isso, devem ser o objeto precipuo de uma consagracao particularizada. 

Porem, por que consagrar a Abencoada Virgem? E tal consagracao possivel? Eis ai o que e negado pela segunda objecao de que falamos antes. A resposta a ser dada, embora nao seja menos exata, precisa ser formulada mais delicadamente; tudo que podemos fazer aqui e indicar onde se pode procura-la. O argumento chave e este: Deus, sozinho, sendo o Santo, o absolutamente sagrado, o comeco e o fim de toda santidade, permite que o homem a ele se consagre e que possa consagrar tudo, mas somente a ele. E verdade. Mas, voltemos a correlacao ja apontada entre a unicidade da "primeira" mediacao de Cristo, por um lado, e pelo outro, a multiplicidade das mediacoes participadas, pelas quais entramos em contato com Cristo e, "em Cristo", com Deus. E atraves deste mediador unico que a alianca e selada e, entao, Deus a ele nos consagra e nos nos consagramos a ele. Temos ai a justificativa para a consagracao ao Coracao de Cristo. Nele nos nos consagramos, a ele e a Deus, mas primeiro e antes de tudo e que ele e o mediador, por meio de quem e em quem nos uniremos a Deus. Contudo, e em sua humanidade, que o verbo encarnado age como mediador e exerce as funcoes referentes. E e esta humanidade que ganha significado, pela realidade simbolica e corporal de Seu coracao. Ai reside o motivo de nos consagrarmos a Ele, em Sua Humanidade, o que faz com que consagremos a nos mesmos ao nos consagrarmos ao Seu Sagrado Coracao. O ato e legitimado pela reacao da relacao existente entre aquela humanidade e a divina Pessoa do Verbo Aquela da uniao hipostatica, mas tambem em razao do trabalho realizado por aquela pessoa, nesta humanidade, ou seja, o trabalho da redencao. 

Com isto, como argumento de base, podemos ver as qualificacoes que justificam e tornam possivel a consagracao a Maria. A abencoada Virgem esta "unida" ao verbo, de maneira unica, pelo elo ontologico da "divina maternidade", e ela esta "associada", de um modo nao menos excepcional, ao trabalho de Redencao. Assim, e sempre Deus, sozinho, a quem nos nos consagramos quando fazemos a consagracao ao Imaculado Coracao de N. Senhora, mas nao o fazemos apenas atraves de Cristo, o unico mediador, mas tambem atraves dela a quem ele e associado em si mesmo, no trabalho de sua mediacao, a Sua Mae e a Mae da Igreja. 

Uma ultima objecao a que devemos ainda replicar, e aquela que nega a uma pessoa o direito de consagrar uma outra a Deus. A razao desta objecao e clara: a consagracao inclui um acordo livre e o unico que pode consagrar a si mesmo a Deus e aquele que faz o acordo. Ainda assim, a pratica de consagrar o mundo, uma nacao, uma comunidade, e permitida pela Igreja, para nao mencionar a consagracao que se efetua por ocasiao do batismo das criancas. Elas sao justificadas da seguinte maneira, primeiramente, a consagracao e, inicialmente, o reconhecimento de uma aderencia. Neste sentido, consagrar alguem ou alguma coisa a Deus e oferecer aquela pessoa ou aquilo a ele, para que a tome como possessao sua, mediante o conhecimento de sua suprema dominacao sobre aquela pessoa ou coisa e, em confiando-as a sua misericordia - estamos glorificando-o, desde ja. Em segundo lugar, a promessa feita neste ato de consagracao baseia-se naquela aderencia; e por isso e pertencente a Deus. No caso da consagracao de um outro, seja ele pessoa ou comunidade, a aderencia e feita em nome e para o bem da pessoa ou coisa consagrada; e e realizada (a promessa) por aqueles que sao responsaveis pela sua eterna salvacao, isto e, os sucessores dos apostolos e seus colaboradores, os padres. E, de fato, sua funcao e seu dever consagrar homens a Deus e entao faze-los viver no espirito daquela consagracao, conduzindo-os pelos caminhos da santidade. Quando eles consagram homens a Deus, eles estao apenas cumprindo o dever primeiro de seu ministerio e se comprometem a construir uma realidade compativel com aquela aderencia que eles fazem por eles e em seu nome. Da mesma forma, consagram-se aquele fim, dentro da maneira especial em que Cristo dise: "Por eles Eu consagro a Mim Mesmo", melhor dizendo, "sacrifico a Mim Mesmo por eles" (Jn. 17,19). Esta e a razao subjacente para a citacao de Joao Paulo II, naquele texto durante seu ato de consagracao efetivado a 13 de maio de 1982. O pastor nao pode consagrar a Deus a ovelha ou o rebanho a ele confiados, a nao ser sacrificando-se, ele proprio, pela salvacao deles. 

Ao mesmo tempo, entendemos por que a consagracao da Russia deve ser feita por todo o Episcopado Catolico, e tambem por que ela pode ser realizada sem que aqueles, imediatamente implicados na relacao com o povo russo, os Bispos Ortodoxos, estejam presentes. E pode ser efetivada mesmo que estes a ela se oponham. De fato, se aqueles bispos sao, na verdade, os sucessores dos apostolos, nao estarao completamente unidos a Pedro ou ao Colegio Episcopal, de forma plena. Mas, "a tarefa de santificacao, ensino e governo", imposta pela "consagracao episcopal... Apenas pode ser exercida, em cumunhao hierarquica com o cabeca do Colegio e seus membros". (Vaticano II, Lumem Gentium, 21). Devemos ter cuidado em observar que a frase "comunhao hierarquica" indica nao so uma realidade juridica, mas tambem tem e ate mais, uma realidade sacramental e espiritual - numa palavra, mistica, relacionada ao misterio. Eis porque nem a ausencia ou mesmo a oposicao dos Bispos Ortodoxos Russos pode ser decisiva. A frentes deles e mais que eles, os responsaveis pela salvacao do povo russo e que sao sucessores de Pedro, podem, por seu poder decisorio, Consagrar aquela nacao, (Vaticano I, Pastor Aeternus, cap. 3) porque a totalidade dos bispos Catolicos colegiadamente, e responsavel pela Igreja e pelo mundo inteiro. (Vaticano II, Lumen Gentium, 23)

Exatamente ai, em consequencia, a Mensagem de Fatima aparece em sua natureza radicalmente eclesial. Os apelos da Abencoada Virgem, em 1929, antecipam o reatamento, pelo Vaticano II, do carater colegiado da funcao episcopal. Se todo o Episcopado Catolico viesse a se juntar ao Papa, em resposta aos comandos de Maria, isto seria, antes de mais nada, a uniao, perfeita, neste ato eminente de adoracao e religiao que e a cerimonia da consagracao, em si, e entao estariam todos unidos no esforco de assumir o compromisso que tera de ser cumprido, de trazer todos os homens a Cristo e conduzi-los, atraves do Coracao da Abencoada Virgem, a estrada da santificacao . 

E por este meio do Imaculado Coracao de Maria que esta consagracao e esta santificacao devem vir. Vamos tentar descobrir por que. 

4 - A GLORIA DA MISERICORDIA NO IMACULADO CORACAO

Na base de todos os trabalhos de Deus esta a Misericordia; em assim sendo, a misericordia deve permanecer viva ate o final desses trabalhos; e a Misericordia que deve manifestar em sua completude, pois a Misericordia se encontra acima de tudo o mais, que Deus deseja para ser glorificado. O momento da Historia da Salvacao que mais a realiza e onde e compreendida com maior intensidade, e aquele da Paixao de Cristo. Esta la na "loucura" da Cruz (1 Cor. 1, 23), onde o Onipotente vai plenificar Sua aniquilacao, Sua "Kenosis" (Filip. 2, 6-8), onde nos diz da "intensissima caridade com que nos amou" (Efe. 2,4). E que o Justo morre pelos pecadores (Rom. 5, 8), que, na verdade, representa um ato de pura misericordia, pois nenhuma razao do lado dos pecadores mereceria tal presente, muito pelo a contrario.*

*pelo contrario. 

Mas, embora tudo culmine com a morte de Cristo e em Sua glorificacao, que e fruto dessa morte (Filip. 2, 9- 11), o trabalho da Misericordia que redefine comeca com a Encarnacao, ponto de partida da "Kenosis" do Verbo (v. 7). E antes da Redacao, a criacao mesma ja e um trabalho de Misericordia, neste duplo sentido, de que nada foi feito em funcao do merito da criatura, que nem mesmo existia, e a quem concede, depois de faze-lo existir, sempre mais do que ela precisa para a sua sobrevivencia. 

E sob esta luz que devemos meditar sobre as afirmacoes de Sao Paulo, tao desconcertantes para a mente humana, e acima de toda uma atmosfera antropocentrica, corroida pelo ateismo que circunda nossos tempos. Tenho em mente, especialmente os grandes textos das Epistolas aos Galatas e aos Romanos: "A lei estabelecida por causa das transgresoes" (Gal. 3, 19); "A Lei entrou naquele pecado e ele cresceu por demais" (Rom 5, 20), ou seja, "quando aquele pecado extrapolou a medida" (7, 13). "Mas onde o pecado grassa, a Graca se derrama ainda maior" (Rom. 5, 20) "a escritura foi concluida embaixo de pecado, e a promessa, pela fe de Jesus Cristo, pode ser dada aqueles que acreditam" (Gal. 3, 22). Numa palavra, disse Santo Agostinho, Deus nao permitiu o mal, o pecado, a nao ser em funcao de um Bem maior. E o Amor misericordioso, capaz de chegar a "loucura" da Encarnacao e da Cruz. Sendo este o plano de Sua "Sabedoria" (1 Cor. 1, 25), Deus permitiu que o Mal se expandisse em toda a sua potencialidade, para que o Bem, igualmente, pudesse ser realizado em todas as suas dimensoes. Eis ai o significado da Paixao de Cristo e tambem o significado da Igreja; quanto o tempo passa, mais ela cresce em intensidade e "O Misterio" se aproxima de sua reta final. 

Por tudo isso, o homem e o objeto desta misericordia e e tambem, de certa forma, seu sujeito. Ele permanece livre e a Graca de Deus esta nele, apenas na gradacao com que ele recebe a fe e vive com fidelidade. Se a "justica" lhe e dada gratuitamente e ate mesmo por pura misericordia, se ele recebe livremente o que pela forca divina lhe foi comunicado, deve trabalhar em prol de sua "salvacao". (Rom. 3, 28; 8, 24f; 13, 11f). Deve trabalhar para se santificar e em fazendo isto santificar o nome de Deus. Se todo o direito e merecimento de ser glorificado diante de Deus tivesse sido negado ao homem (3, 27) tudo o que lhe restaria seria gloriar-se de si mesmo. Porem, essa condicao de servidao existe em funcao de uma glorificacao infinitamente mais alta, que o proprio Deus deseja operar em Sua criatura. 

Pois a gloria de Deus e Seu proprio ser, e Sua glorificacao ad extra e a comunicacao desse ser por participacao. Isto e o que ele fez desde a criacao: a gloria de Deus em Seus trabalhos foi faze-los ser. E quanto mais eles sao, mais elevada e sua participacao no ser de Deus, e mais Deus e neles glorificado e mais sao el